quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Os últimos incas: a morte da civilização Inca



De acordo com a tradição, todo Inca deveria casar-se com uma mulher de sangue real nascida em Cuzco. Huayna Capac o fez e desse casamento, sem alegria, nasceu Huáscar (“o odiado”), herdeiro legítimo do trono. No entanto, Huayna estava apaixonado pela princesa de Quito; e desse amor, presenciado com horror pelo Império, nasceu seu querido filho Atahualpa (“filho da fortuna na terra”).

Os filhos cresciam: Huáscar, amado pelo povo e malquerido pelo pai, e Atahualpa, amado pelo pai e alvo de revoltas dos cortesãos de Cuzco. O coração do reino estava divido entre os dois príncipes, que cresceram em constante rivalidade.

Arturo Capdevila, em seu livro intitulado Los Incas, retrata com expressividade a situação do Império:

Sombrio ocaso foi a vida de Huayna Capac. Seus filhos rivais torturavam-lhe a consciência com quem sabe quais duras previsões. Sinais nefastos manchavam o céu pátrio. De espanto em espanto, em misteriosa onda de lenda, corria no entardecer de seu reinado a fama dos espanhóis recém-chegados, homens brancos desembarcados um dia com temível desígnio pelo confim setentrional do país. O céu e a terra assinalavam presságios. Meteoros cárdeos rasgavam o firmamento na noite. Uma auréola de fogo dividida em três círculos rodeava o disco da lua. Os llaycas agouravam o Inca: 'o primeiro círculo anuncia guerra; o segundo, a queda do sol; o terceiro, o fim de tua raça.' 

Tudo isso se pressentia no reino do Peru. As próprias cerimônias realizadas pela morte de Huayna dão por sua parte um sinal disso. Uma espécie de loucura trágica estava impregnada na alma popular. Ao celebrar as exéquias de Huayna, bem entenderam que se despediam de seu último Inca. Nunca o templo de Tampu, próximo a Cuzco, presenciou mais solene homenagem. Os palácios reais foram clausurados por todo o Império. Fanatismo, fatalidade e loucura indicavam a iminência da queda. Imagina-se com espanto aquela pira de suplício alçada em honra ao Inca morto. Supõe-se que 4 mil vítimas voluntárias, entre concubinas e servos, dançaram e sucumbiram naquela fogueira em que já fumegava o vento vazio, a antiga glória do Peru.”

Antes de morrer, Huayna resolvera quebrar a tradição Inca e repartir o reino entre seus dois filhos: Atahualpa, que seria o monarca do Norte, e Huáscar, que o seria do Sul. Decidira também, em fidelidade à esposa amada, ser enterrado na cidade de Quito, junto às múmias de seus antepassados.

O cisalhamento do reino preparava obscuramente o império para o triunfo dos homens brancos. Em 1531, os exércitos de Atahualpa e Huáscar se confrontaram numa sangrenta batalha fratricida em Ambato e Quipaypán, da qual Atahualpa se saiu vencedor. Mas isso iria durar pouco tempo, como bem o sabiam os amautas e haravecs, povos de ciência e saber ocultos; para eles, Atahualpa não era na verdade um Inca, um legítimo filho do Sol; era um intruso.

Então, em 1532, Pizarro, conquistador espanhol, foi recebido por Atahualpa em Cajamarca, onde, na primeira oportunidade, aprisionou o imperador, iniciando a destruição do império.
Atahualpa foi morto por ordem de Pizarro. O povo já não tinha seu deus – era inconcebível como um deus poderia ter sido destruído tão facilmente por aqueles homens.

Assim foi a queda da tradição religiosa incaica; assim foi a queda do tão poderoso exército; assim foi a queda da capital, Cuzco. Assim foi a morte do Império Inca.

Mas certo era que a lua havia se mostrado envolta na tríplice sinistra auréola. O invasor já começava a apoderar-se do solo americano e se cumpria, a seu tempo, a palavra profética de Nezahualcoyotl: virão tempos em que serão desfeitos e destroçados os vassalos, e tudo cairá nas trevas do esquecimento…” (CAPDEVILA, Los Incas, p.164).

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