"Tenho especial encanto por esse pessoal de Belém. O novo disco da Gaby Amarantos é absolutamente sensacional. Lia Sofia também é uma cantora e compositora muito boa de lá. E, na guitarrada, Felipe Cordeiro é um cantor e compositor muito bom. É carimbó, com bom uso daquele tecladinho safado de tecnobrega. Tem também a Gang do Eletro. Ouvi também o novo disco da Marina de la Riva e acho que ela encontrou o caminho com um repertório latin chic. Ela não é cool."
Nelson Motta
IstoÉ Gente nº 623, coluna Diversão & Arte
os montes, ah! os montes... / contam histórias tão distantes / de açaizeiros, igarapés, / dos tempos de antes, / lembranças, sussurros e saudades / aos montes. (Minas Gerais, rodovia Rio-Brasília, 20 de dezembro de 2005)
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Bem Belelém! Viva Belém!
Manuel Bandeira
Bembelelém
Viva Belém!
Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial
Beleza eterna da paisagem
Bembelelém
Viva Belém!
Cidade pomar
(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinqüente:
O apedrejador de mangueiras.)
Bembelelém
Viva Belém!
Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:
Estrada de São Jerônimo
Estrada de Nazaré
Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de todas as cidades do Brasil
Se chama liricamente
Brasileiramente
Estrada do Generalíssimo Deodoro
Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
Terra da castanha
Terra da borracha
Terra de biribá bacuri sapoti
Terra de fala cheia de nome indígena
Que a gente não sabe se é de fruta pé de pau ou ave de plumagem bonita.
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
Me obrigarás a novas saudades
Nunca mais me esquecerei do teu Largo da Sé
Com a fé maciça das duas maravilhosas igrejas barrocas
E o renque ajoelhado de sobradinhos coloniais tão bonitinhos
Nunca mais me esquecerei
Das velas encarnadas
Verdes
Azuis
Da doca de Ver-o-Peso
Nunca mais
E foi pra me consolar mais tarde
Que inventei esta cantiga:
Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
---------------------------------
Para não dizer que esqueci dos 395 anos completos da minha cidade quente, chuvosa e mangueirosa (e claro que não me esqueci, taí o Twitter que não me deixa mentir, rs!), vai aqui este post, que é um velho poema do "Manu" (Manuel Bandeira), poeta brasileiro, filho da Modernidade, e que teve o grande privilégio de conhecer a Belém da Borracha, filha dos áureos tempos da alta economia extrativista do látex amazônico.
Claro, ele não esteve em Belém no final do século XIX, mas pôde, ainda nos anos 30 e 40 do século XX, conhecer a cidade que um dia já foi capital da colônia portuguesa do Grão-Pará e que foi também a segunda cidade mais rica do Brasil no final do século XIX, ao lado da capital Rio de Janeiro.
Mário de Andrade também conheceu essa Belém aí, mas isso vale outro post.
E como será a minha Belém dos 400 anos?
A ela, Rainha das Marés (salve!), minha eterna homenagem a reverência.
Bembelelém
Viva Belém!
Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial
Beleza eterna da paisagem
Bembelelém
Viva Belém!
Cidade pomar
(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinqüente:
O apedrejador de mangueiras.)
Bembelelém
Viva Belém!
Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:
Estrada de São Jerônimo
Estrada de Nazaré
Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de todas as cidades do Brasil
Se chama liricamente
Brasileiramente
Estrada do Generalíssimo Deodoro
Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
Terra da castanha
Terra da borracha
Terra de biribá bacuri sapoti
Terra de fala cheia de nome indígena
Que a gente não sabe se é de fruta pé de pau ou ave de plumagem bonita.
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
Me obrigarás a novas saudades
Nunca mais me esquecerei do teu Largo da Sé
Com a fé maciça das duas maravilhosas igrejas barrocas
E o renque ajoelhado de sobradinhos coloniais tão bonitinhos
Nunca mais me esquecerei
Das velas encarnadas
Verdes
Azuis
Da doca de Ver-o-Peso
Nunca mais
E foi pra me consolar mais tarde
Que inventei esta cantiga:
Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
---------------------------------
Para não dizer que esqueci dos 395 anos completos da minha cidade quente, chuvosa e mangueirosa (e claro que não me esqueci, taí o Twitter que não me deixa mentir, rs!), vai aqui este post, que é um velho poema do "Manu" (Manuel Bandeira), poeta brasileiro, filho da Modernidade, e que teve o grande privilégio de conhecer a Belém da Borracha, filha dos áureos tempos da alta economia extrativista do látex amazônico.
Claro, ele não esteve em Belém no final do século XIX, mas pôde, ainda nos anos 30 e 40 do século XX, conhecer a cidade que um dia já foi capital da colônia portuguesa do Grão-Pará e que foi também a segunda cidade mais rica do Brasil no final do século XIX, ao lado da capital Rio de Janeiro.
Mário de Andrade também conheceu essa Belém aí, mas isso vale outro post.
E como será a minha Belém dos 400 anos?
A ela, Rainha das Marés (salve!), minha eterna homenagem a reverência.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Natal Amazônico (se Jesus fosse paraense...)
“E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, para que todo o mundo participasse do Censo. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. E subiu também José, da cidade de Santarém, à cidade chamada Belém, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em fraldas, e deitou-o num tacho de farinha de mandioca, porque não havia lugar para eles na palafita.
Ora, havia, na região das ilhas, pescadores ribeirinhos que trabalhavam durante as vigílias da noite. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor.
E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois vos nasceu hoje, na cidade de Belém, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em fraldas, e deitado num tacho.
E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.
E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pescadores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos fez saber.
E foram apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado no tacho. E, vendo-o, divulgaram a palavra que acerca do menino lhes fora dita; e todos os que a ouviram se maravilharam do que os pescadores lhes diziam. Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.
E voltaram os pescadores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes havia sido dito.”
(paráfrase de Lucas 2.1-2)
________________________________________
Me impressiona e inspira o fato de que Jesus era alguém do povo, um homem nascido numa cidade real e histórica, mas pequena em relação a Jerusalém; criado numa região periférica da nação, a ponto de Natanael ter perguntado de forma preconceituosa: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1.46). Um jovem falando em parábolas sobre o Reino de Deus, pregando o amor e a paz.
Gosto de imaginar que, se Jesus fosse brasileiro, e se fosse paraense, teria sido visitado, ainda bebê, por alguns pajés que o teriam presenteado com vasos de cerâmica decorada, patchouli e banhos de ervas. Diferente, não? Pensar que ele foi visitado por magos do oriente, que certamente estudavam os sentidos ocultos dos astros e outras coisas.
Se Jesus fosse paraense, teria navegado muitas vezes entre Belém do Pará, Macapá, Santarém e Manaus, visitando as populações suburbanas e ribeirinhas, onde teria feito seu ministério, multiplicando farinha e tucunaré para alimentar a comunidade. Entre seus discípulos mais chegados, alguns pescadores, um fiscal da receita federal e um ativista do MST.
Em sua última janta (na Bíblia chamada de “ceia”), teria tomado a vasilha de açaí nas mãos, dizendo aos discípulos: “Este é o novo testamento no meu sangue; fazei isto todas as vezes que beberdes, em memória de mim.” E, da mesma forma teria feito com a farinha de tapioca, dizendo: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.” (1Coríntios 11.24-25)
Teria sido traído por um deles, que o entregou à Polícia Federal em troca de um salário mínimo, e teria morrido em Brasília, junto a ladrões, acusado de causar perturbação pública.
Nós, brasileiros, provavelmente teríamos ficado sabendo de sua morte naquele mesmo dia, via rádio, televisão, jornais e internet. Muitos iriam rir, dizendo: “Morreu mais um maluco.” Outros diriam, como Natanael: “Pode vir alguma coisa boa do Norte?”. Outros iriam ler e ouvir sobre o seu ministério e dizer: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.” (Marcos 15.39).
Mas eu me pergunto seriamente: qual seria a minha atitude se Jesus vivesse nos dias de hoje? Eu o escutaria? Eu o abrigaria em minha casa? Eu andaria com ele? Eu me arriscaria a ser confundido com um de seus seguidores “malucos”? Eu comeria com ele à mesma mesa? Aceitaria andar como ele andou, misturado com o povo, ensinando os pobres, condenando os ricos e contrariando os sacerdotes?
Eu sou, ou não sou um discípulo de Jesus?
Encerro com este texto intitulado Bênção Franciscana, atribuída a Francisco de Assis. No advento desde ano de 2011, faço desta bênção a minha oração para a vida de cada um que me lê, assim como para mim mesmo.
Que Deus te abençoe com
um desconforto inquietante sobre as respostas fáceis,
as meias verdades e as relações superficiais,
para que possas buscar a verdade corajosa
e viver profundamente em teu coração.
Que Deus te abençoe com sagrada raiva à injustiça,
à opressão e à exploração de pessoas para que possas trabalhar incansavelmente pela justiça,
liberdade e paz entre todas as pessoas.
Que Deus te abençoe com o dom de lágrimas
para derramá-las com aqueles que sofrem de dor,
rejeição, fome ou a perda de tudo aquilo que eles amam,
para que possas estender a mão para lhes dar conforto
e transformar a sua dor em alegria.
Que Deus te abençoe com a tolice suficiente
para que creias que realmente podes fazer diferença neste mundo,
para que possas com a graça de Deus,
fazer aquilo que os demais insistem ser impossível.
E que a benção de Deus, Suprema Majestade e nosso Criador,
Jesus Cristo a Palavra encarnada que é o nosso irmão e Redentor,
e o Espírito Santo, o nosso Advogado e Guia,
seja contigo e permaneça contigo e com todos,
hoje e para sempre.
Amém.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Te Vejo, Belém
André Coelho
Deste meu rio de nuvens que me trazem do Rio de Janeiro,
avisto agora uma bruta floresta,
um rio monumental.
Minha alma canta,
como Jobim!
bebo Waldemar!
Eis que vejo meu rio de concreto e de mangueiras...
Ah! Belém!
Quanto tempo desta vez?
Tenho sonhado com teu céu,
tuas nuvens,
teus igarapés...
teu chão.
Chão que agora me recebe
no coração da floresta
de pau e pedra;
um ribeirinho da cidade.
Chão que me conhece,
que tem meu cheiro,
meu peso,
minha religião,
minha alma.
Te vejo, Belém,
da janela deste avião
e não consigo conter uma lágrima teimosa.
(pausa para uma outra lágrima).
Estou louco para suar de novo nas tuas manhãs,
para tirar a minha sesta na tua tarde,
pra sentir a brisa de água-doce da tua noite.
Vem cá, Belém,
dá cá um abraço...
Cheguei!
7 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Solo de um ribeirinho: a mesma periferia (impressões sobre o filme 5x Favela)
Diante da realidade exposta pelo diretores Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra no filme 5x Favela – agora por nós mesmos, vem a mim uma série de perguntas iniciais: Qual é o Brasil? O que os brasileiros entendem por Brasil e brasilidade? Qual a identidade do brasileiro? O que faz do Brasil Brasil, em qualquer lugar do Brasil?
O filme tem um ar ao mesmo tempo côntico – dadas as narrativas, que lembram alguns contos de Carlos Drummond de Andrade e Lígia Fagundes Telles – e profundamente realista, numa descrição minuciosa da vida nas favelas cariocas, a qual chega a ser ainda mais verossímil do que nas produções Tropa de Elite (José Padilha, 2007) e Cidade dos Homens (Rede Globo, série, 2002-2005).
O quinto episódio do filme, Acende a Luz, dirigido por Luciana Bezerra, foi para mim o mais marcante, não pelo enredo, mas pela simbologia da idéia central, das cenas e dos argumentos.
É véspera de Natal e os moradores do morro estão sem luz. Os técnicos da companhia de energia elétrica não deram conta de restabelecer o funcionamento de um equipamento e, num esforço para tentar garantir que o serviço seja concluído antes do anoitecer, os moradores “seqüestram” um dos técnicos.
Mas a estratégia não surte o resultado desejado e, depois de muita insistência, tudo o que o técnico consegue é fazer a luz funcionar em apenas um poste em todo o morro. E é exatamente sob a luz deste único poste que a vizinhança vem comemorar o seu Natal.
A cegueira que se impõe pela falta da luz. A esperança e a espera pelo seu brilho. Uma luz dada aos homens na noite de Natal. A festa que a todos congrega. O encontro dos diferentes sob a luz.
São todos certamente temas muito interessantes para uma reflexão sobre o episódio e sua relação com o próprio sentido do Natal de Jesus.
Mas outro detalhe me vem.
Na trilha sonora de Acende a Luz, a primeira música executada chama-se Solo do Ribeirinho. Ao contrário do que a própria proposta inicial do filme possa sugerir, a música não é um funk carioca, mas uma guitarrada, ritmo tipicamente paraense, filho “pobre” das antigas guitarradas portuguesas, irmão do carimbó, e parente não muito distante do merengue caribenho, do brega paraense e da jovem guarda – referências comumente citadas pelos tradicionais mestres da guitarrada, como Aldo Sena, Curica e Vieira, ou pelos apreciadores do ritmo.
E surge uma nova questão: o que um ritmo tradicional muito pouco conhecido, que não é nacionalmente popular como a Banda Calypso, executado por mestres tocadores de viola do interior do Pará, tem a ver com a favela carioca?
E surge uma nova questão: o que um ritmo tradicional muito pouco conhecido, que não é nacionalmente popular como a Banda Calypso, executado por mestres tocadores de viola do interior do Pará, tem a ver com a favela carioca?
Um caminho de resposta está em olhar para a periferia. O que nos dizem os moradores da favela da maré? O que nos dizem os ribeirinhos do rio Tapajós? Quais as cores e as dores dos sertanejos do Caicó e dos pescadores de Paraty? Que anseios trazem no coração os guarani do Rio Grande do Sul e os negros do Silêncio do Matá, no coração da Amazônia, próximo a Óbidos?
No princípio de 2008, acompanhei a notícia dos suicídios frequentes em tribos indígenas do Mato Grosso do Sul: em apenas um mês, mais de dez jovens se suicidaram. Um deles, que havia se enforcado, pendia em uma corda amarrada a um galho de árvore e trazia sob os pés, no chão, a inscrição: “Eu não tenho lugar”.
O anseio é um só, o grito é um só. É o grito da periferia pelo espaço, pela liberdade, pelo respeito. É um anseio, um profundo anseio, por dias melhores. Por um dia em que a luz brilhe tanto, que não mais sejam necessárias a luz do sol, da lua ou dos bulbos das lâmpadas incandescentes.
Concluo este artigo com um poema que é uma letra de música. Na verdade, um lundu¹.
O poema fala de sede, de água e de uma vida que corre como um rio.
Para o coração dilacerado e ressecado pela pobreza e pelo desrespeito, há uma água tão pura que nem existe no mundo, mas que pode ser experimentada no coração de quem tem a Jesus.
É setembro, mês em que voltam as chuvas no Brasil. Esperança de fim das queimadas que assolam o país. Esperança de boa safra no próximo verão. Esperança de libertação para os pés que foram colocados de escanteio. Esperança de salvação para o coração do homem.
Alto Mar
Arlindo Lima
Começa o dia de novo,
o sol ainda finge de morto.
Minha vida é esse rio,
represa de desafio,
que o vento filtra os brios,
pois é necessário regar.
Vamos molhar,
água levar...
“A água da vida eu cedo”.
A sede afoga o moleque
e, quanto mais cedo ela cede,
mais cedo na pesca ele investe.
A profundeza estremece,
pois vamos ganhar alto mar.
Vamos pescar,
água levar...
Mas temo a maré quando baixa,
pois nem chuva forte lhe basta.
Eu me distancio da margem,
o barro é a minha imagem.
Então busco a fonte, verdade,
pra água da vida tomar
Vou me molhar,
água tomar...
Ouvir "Mestres da Guitarrada - Solo do Ribeirinho"
Ouvir "Arlindo Lima - Alto Mar"
NOTAS
1. Lundu: dança ritmada por tambores, parte do folclore nortista paraense registrado por Mário de Andrade em suas viagens pelo Brasil nas primeiras décadas do século XX e ainda hoje muito apreciada nas rodas de danças folclóricas em Belém.
FONTES
5x Favela: agora por nós mesmos. Disponível em: www.5xfavela.com.br, acesso em 02 de setembro de 2010.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
poema da volta
André Coelho
Cada dia...
um gigante...
Cada passo...
tão difícil
e tão longo!
Você não imagina o quanto já andaram estes pés;
não imagina o tamanho dos passos;
não sabe a distância entre Rio e Belém;
nem conhece, dos calcanhares, os laços.
Os dias me tiram as forças;
porém madrugadas, como esta,
fazem-me férteis o coração e os poros.
Um coração grita na noite:
– Queeeeeem?...
– Aquiiiiiiii!... –,
enquanto grossas gotas de sangue escorrem escuras nas areias
Curva-se um par de joelhos,
enquanto repousam os pés,
e a voz, do alto, indaga:
– Quem és?
– Sou eu, teu filho...
já não lembras de mim?
Decerto andei disperso,
não telefonei, não escrevi...
mas uma coisa peço:
deixas que volte-me a ti?
A voz sorri,
desce,
calça as havaianas,
abre a porta
e, sorrindo, diz:
– Claro que deixo, filho...
Não cochilei enquanto não chegaste.
Eis ali tua cama quentinha, roupas limpas,
e teu cachorro no quintal.
É triste a partida
sem a volta;
viagem só de ida.
Para quem nunca partiu,
dói menos...
mas não há nada igual
a pisar o chão de casa
e perceber, num sorriso,
que as raízes ainda estão lá,
fincadas,
nutridas,
profundas,
entrelaçadas,
robustas,
doídas
e fortalecidas.
Rio de Janeiro
17 de dezembro de 2009
um gigante...
Cada passo...
tão difícil
e tão longo!
Você não imagina o quanto já andaram estes pés;
não imagina o tamanho dos passos;
não sabe a distância entre Rio e Belém;
nem conhece, dos calcanhares, os laços.
Os dias me tiram as forças;
porém madrugadas, como esta,
fazem-me férteis o coração e os poros.
Um coração grita na noite:
– Queeeeeem?...
Quem nos ouvirá as mágoas?
Quem nos salvará das águas?
Quem terá a chave que abre todo sentimento?
(Céu na Boca)
Outro coração, do alto, grita:– Aquiiiiiiii!... –,
enquanto grossas gotas de sangue escorrem escuras nas areias
[ quentes do deserto.
Curva-se um par de joelhos,
enquanto repousam os pés,
e a voz, do alto, indaga:
– Quem és?
– Sou eu, teu filho...
já não lembras de mim?
Decerto andei disperso,
não telefonei, não escrevi...
mas uma coisa peço:
deixas que volte-me a ti?
A voz sorri,
desce,
calça as havaianas,
abre a porta
e, sorrindo, diz:
– Claro que deixo, filho...
Não cochilei enquanto não chegaste.
Eis ali tua cama quentinha, roupas limpas,
e teu cachorro no quintal.
É triste a partida
sem a volta;
viagem só de ida.
Para quem nunca partiu,
dói menos...
mas não há nada igual
a pisar o chão de casa
e perceber, num sorriso,
que as raízes ainda estão lá,
fincadas,
nutridas,
profundas,
entrelaçadas,
robustas,
doídas
e fortalecidas.
Rio de Janeiro
17 de dezembro de 2009
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Oi Noites Cariocas
André Coelho
Chuva me endoida:
fecho os olhos apertado;
estou em Belém!
E consigo enganar-me
por alguns minutinhos
até que o funk recomeça
no bar em frente ao prédio
e digo, estarrecido:
"Oi, noites cariocas!"
Estácio, Rio de Janeiro
28 de janeiro de 2007
Chuva me endoida:
fecho os olhos apertado;
estou em Belém!
E consigo enganar-me
por alguns minutinhos
até que o funk recomeça
no bar em frente ao prédio
e digo, estarrecido:
"Oi, noites cariocas!"
Estácio, Rio de Janeiro
28 de janeiro de 2007
quarta-feira, 4 de março de 2009
Artigos para importação...
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Ritmo de Festa
A saudade é um dos temas recorrentes em mim. Assim como o o são o longe, o perto, o que se deseja, as decepções, as razões, a chuva, o êxtase, a alegria, a verdade, as decisões, et. al.
Isso me faz lembrar uma aula de Língua Portuguesa, que tive há não muito tempo aqui no Rio de Janeiro. O professor escolhia aleatoriamente um tema e cada aluno ia à frente da turma discursar durante 5 minutos sobre o tema escolhido.
Quando chegou a minha vez, já ao fim da aula, não havia mais temas na lista do professor. Ele iria me pedir para falar em "luto", mas, depois que alguém o lembrou de que esse tema já havia sido usado, ele modificou para "festa".
Sempre acho mais difícil falar sobre a alegria, porque é um sentimento óbvio. Quem está alegre faz festa. Porém quem está triste pensa, reflete. Já disse há muito tempo o pensador do livro de Eclesiastes que "Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração." (cf v. 7.2)
Fiquei de pé, dirigi-me à frente da turma, e pensei durante alguns segundos. À minha mente não vinham danças, nem comemorações, nem banquetes, nem festas de aniversário. Mas me veio a lembrança da chuva que cai nas tardes quentes de Belém do Pará.
Penso que a saudade é aquilo que faz cantar a alma. É aquilo que coloca a alma (e não o corpo) em festa. Acho muito curioso, por exemplo, a maneira como o carioca, em geral, não gosta de chuva. Costumo dizer que os cariocas, quando chove, ficam deprimidos. De fato, eles não saem de casa, ou saem por obrigação e passam o dia resmungando e dizendo que preferem o sol.
É claro. O sol, para o carioca, é festa. A cidade do Rio de Janeiro, nos dias ensolarados, fica mais bela, mais aproveitável, mais visível (e a cidade do Rio é uma cidade que precisa ser vista de longe). Sem falar nas praias. O sol coloca a alma do carioca em festa. Em contrapartida, a chuva é como se trouxesse o luto.
Nos primeiros anos morando no Rio, eu não conseguia entender isso. Para mim, um paraense de Belém, chuva é essência, lembrança e vida. Em geral, para o papa-chibé (belenense), a chuva coloca a alma em festa.
Existem poucas coisas boas como tomar banho de chuva numa tarde quente, de pés descalços. Ou então sentar-se do lado de dentro da casa e ver a chuva, ora pingando, ora jorrando pelos telhados e condutores. Ou então observar as nuvens negras cobrindo o céu no meio do dia, parando o vento, fazendo as luzes da cidade se acenderem, e derramando-se minutos depois em deliciosas chuvas torrenciais.
Poucas coisas são tão boas quanto, depois de uma forte chuva equatorial, assistir o céu se abrindo e o sol brilhando novamente. Só sabe quem já viu.
A saudade para mim não é luto. Saudade é trazer para perto o que não mais está perto. Saudade é presença, é certeza. Saudade é festa.
Isso me faz lembrar uma aula de Língua Portuguesa, que tive há não muito tempo aqui no Rio de Janeiro. O professor escolhia aleatoriamente um tema e cada aluno ia à frente da turma discursar durante 5 minutos sobre o tema escolhido.
Quando chegou a minha vez, já ao fim da aula, não havia mais temas na lista do professor. Ele iria me pedir para falar em "luto", mas, depois que alguém o lembrou de que esse tema já havia sido usado, ele modificou para "festa".
Sempre acho mais difícil falar sobre a alegria, porque é um sentimento óbvio. Quem está alegre faz festa. Porém quem está triste pensa, reflete. Já disse há muito tempo o pensador do livro de Eclesiastes que "Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração." (cf v. 7.2)
Fiquei de pé, dirigi-me à frente da turma, e pensei durante alguns segundos. À minha mente não vinham danças, nem comemorações, nem banquetes, nem festas de aniversário. Mas me veio a lembrança da chuva que cai nas tardes quentes de Belém do Pará.
Penso que a saudade é aquilo que faz cantar a alma. É aquilo que coloca a alma (e não o corpo) em festa. Acho muito curioso, por exemplo, a maneira como o carioca, em geral, não gosta de chuva. Costumo dizer que os cariocas, quando chove, ficam deprimidos. De fato, eles não saem de casa, ou saem por obrigação e passam o dia resmungando e dizendo que preferem o sol.
É claro. O sol, para o carioca, é festa. A cidade do Rio de Janeiro, nos dias ensolarados, fica mais bela, mais aproveitável, mais visível (e a cidade do Rio é uma cidade que precisa ser vista de longe). Sem falar nas praias. O sol coloca a alma do carioca em festa. Em contrapartida, a chuva é como se trouxesse o luto.
Nos primeiros anos morando no Rio, eu não conseguia entender isso. Para mim, um paraense de Belém, chuva é essência, lembrança e vida. Em geral, para o papa-chibé (belenense), a chuva coloca a alma em festa.
Existem poucas coisas boas como tomar banho de chuva numa tarde quente, de pés descalços. Ou então sentar-se do lado de dentro da casa e ver a chuva, ora pingando, ora jorrando pelos telhados e condutores. Ou então observar as nuvens negras cobrindo o céu no meio do dia, parando o vento, fazendo as luzes da cidade se acenderem, e derramando-se minutos depois em deliciosas chuvas torrenciais.
Poucas coisas são tão boas quanto, depois de uma forte chuva equatorial, assistir o céu se abrindo e o sol brilhando novamente. Só sabe quem já viu.
A saudade para mim não é luto. Saudade é trazer para perto o que não mais está perto. Saudade é presença, é certeza. Saudade é festa.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Casa de Farinha
Thiago Azevedo (Belém-PA)
No roçado de mandiotuba
Raiz de mandioca brotou,
Braquinha, cruvela, engana-ladrão,
Tantos nomes, uma visão.
Palavra semeada na terra
Floresce como maniva,
Meu coração é manipeba,
Na água amolece minha vida.
Casa de farinha,
Mandioca triturada,
Meu ser no fogo torrada,
Farinha pura tirar.
Deus, peneira minha vida,
Pra purificar minha essência,
Pai, nesse mundo de carência,
Manipueira não queria.
Sou farinha de mandioca,
Da palavra semeada,
Alimento de gente necessitada
Deus fazedor de farinha,
Celebrar na farinhada,
Cantar num som brasileiro
A alegria dessa toada.
No roçado de mandiotuba
Raiz de mandioca brotou,
Braquinha, cruvela, engana-ladrão,
Tantos nomes, uma visão.
Palavra semeada na terra
Floresce como maniva,
Meu coração é manipeba,
Na água amolece minha vida.
Casa de farinha,
Mandioca triturada,
Meu ser no fogo torrada,
Farinha pura tirar.
Deus, peneira minha vida,
Pra purificar minha essência,
Pai, nesse mundo de carência,
Manipueira não queria.
Sou farinha de mandioca,
Da palavra semeada,
Alimento de gente necessitada
Deus fazedor de farinha,
Celebrar na farinhada,
Cantar num som brasileiro
A alegria dessa toada.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
cobra norato: "no peito, a marca de pescador..."
A: fala seu mané.
hj vim no bonde conversando com um colega do seminário sobre pink floyd.. foi rápido, mas deu sodade doceis.. pra variar! ahuahuahuah..
e aih, como tah td?? tens estudado? abç, brother, sdd!!!
P: hehehee...
sempre c saudades...
ta td beleza, cara... e to estudando bastante sim... [...]
pois eh...
isso q ta rolando por enquanto
e tu?
fazendo u q da vida?
bjunda
A: né?
da vida.. to fazendo uma canção.
P: hehehe...
tu e poeta...
A: \o/
sô nada.
sô filho de cobra, parido em noite de lua, pequeno!
"filho de filho da floresta", como diz uma música da simone almeida..
e filho da floresta tem sempre mais canções do que a lua cheia.
[...] égua, gostei disso q eu falei. ^^
vou postar nossa conversa lah no blog.
hj vim no bonde conversando com um colega do seminário sobre pink floyd.. foi rápido, mas deu sodade doceis.. pra variar! ahuahuahuah..
e aih, como tah td?? tens estudado? abç, brother, sdd!!!
P: hehehee...
sempre c saudades...
ta td beleza, cara... e to estudando bastante sim... [...]
pois eh...
isso q ta rolando por enquanto
e tu?
fazendo u q da vida?
bjunda
A: né?
da vida.. to fazendo uma canção.
P: hehehe...
tu e poeta...
A: \o/
sô nada.
sô filho de cobra, parido em noite de lua, pequeno!
"filho de filho da floresta", como diz uma música da simone almeida..
e filho da floresta tem sempre mais canções do que a lua cheia.
[...] égua, gostei disso q eu falei. ^^
vou postar nossa conversa lah no blog.
terça-feira, 4 de março de 2008
triste humor profético
André Coelho
Sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
Mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
Não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
Assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
Ai, Deus, que dor no peito é esta?
Não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
Mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
Escrito em 27 de fevereiro de 2006, a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais depois de meu primeiro retorno a Belém.
Postado hoje, quando estou a 1 dia de completar 3 anos de chegada ao Rio.
Sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
Mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
Não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
Assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
Ai, Deus, que dor no peito é esta?
Não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
Mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
Escrito em 27 de fevereiro de 2006, a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais depois de meu primeiro retorno a Belém.
Postado hoje, quando estou a 1 dia de completar 3 anos de chegada ao Rio.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
montes
os montes, ah! os montes...
contam histórias tão distantes
de açaizeiros, igarapés,
dos tempos de antes,
lembranças, sussurros e saudades
aos montes.
André Coelho
Minas Gerais, rodovia Rio-Brasília,
20 de dezembro de 2005
contam histórias tão distantes
de açaizeiros, igarapés,
dos tempos de antes,
lembranças, sussurros e saudades
aos montes.
André Coelho
Minas Gerais, rodovia Rio-Brasília,
20 de dezembro de 2005
terça-feira, 24 de abril de 2007
triste humor profético
André Coelho
sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
ai, Deus, que dor no peito é esta?
não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais
27 de fevereiro de 2006
sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
ai, Deus, que dor no peito é esta?
não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais
27 de fevereiro de 2006
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