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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Gaia e Cloud Atlas

Enquanto novamente escuto, embevecido, o álbum Gaia (2000), de Nilson Chaves, após ter assistido ao intrigante filme A Viagem¹ (2012), penso que a humanidade esteja cada vez mais distante da conexão original com a Terra – e com o seu Criador, a quem muitos como eu insistem em chamar de Deus –, o que traz enormes problemas na atualidade e anuncia um futuro de consequências catastróficas.

Opto pela poesia. Opto pelas utopias. Pelas relações simples de trabalho, de amizade e de amor e procuro aprender mais e mais os segredos da vida eterna e simples.

Que o Criador tenha misericórdia de nós.

___
MONÓLOGO DO ÍNDIO
Nilson Chaves

Perdido de mim, não sei,
não sei ser mais o que sou
e nunca poderei deixar de ser.

De mim me perco e esqueço
do que sou na precisão,
que já tenho de imitar
aquilo que os  brancos são.

Uma apenas tentativa
inútil que me dissolve
na dor que não me devolve
o poder de me encontrar.

Já desmembrado da glória
radiosa de conviver,
já perdido o parentesco
com a água, o fogo e as estrelas,
já sem crença, já sem chão,
oco e opaco, me converto
em depósito dos restos
impuros do ser alheio.

Resíduo de mim, a brasa
do que já foi me reclama,
como a luz que me conhece
de uma estrela agonizante
dentro do ser que perdi.

___
1. Cloud Atlas – Dirigido por Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski. Ano: 2012.




domingo, 8 de abril de 2012

A Escuridão me Basta


Thomas Merton (1915-1968)

Senhor, é quase meia-noite e estou te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.

Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão,
sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos
para preencher o vazio da noite na qual espero por ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos,
a fim de permanecer na doce escuridão da fé pura.

Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre.
Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo,
estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em tua paz e tua glória.
Tua claridade é minha escuridão.

Eu não conheço nada de ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado. Se te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que te conheço, serei louco.
A escuridão me basta.



segunda-feira, 25 de julho de 2011

Livra-me da Autossuficiência

Israel Belo de Azevedo

Livra-me, Senhor, dos autossuficientes,
que palitam suas conquistas
que vão enfileirando em douradas listas.

Livra-me, Senhor, dos habitantes
dos castelos das certezas brilhantes
que não dão lugar à dúvida,
a dúvida nenhuma, sob hipótese alguma.

Livra-me da influência
dos que cultuam sua própria inteligência,
que afagam no temor de não ver reconhecida,
enquanto sorriem para aqueles que põem aquém da sua corrida.

Senhor, meu eu ajoelhado te clama:
livra-me, a mim principalmente,
de ser o que condeno, porque a tentação me pressiona.


---
reproduzido com autorização


terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobre missão, música e brasilidades - carta aos meus colegas do STBSB

Caros teólogos, pastores, professores e missionários,

Acredito que só vamos aprender a falar do evangelho à alma do brasileiro quando conhecermos a "nossa" cultura (do nosso povo). E não se conhece cultura sem conhecer a música, a produção literária, as comidas, as lendas, os mitos, os medos, as histórias. A gente não precisa ter medo da nossa cultura. Ela pode ser estranha. Mas é estranha pra nós, criados em outra cultura, evangélica-norte-americana.

Ainda precisamos ir muito aos sertões das secas e das águas do Brasil, ouvir o carimbó e as toadas de boi amazônicos, o baião e os xotes do nordeste, os violeiros caipiras do jequitinhonha, do Pantanal, das terras altas da caatinga baiana... coisas que o Brasil mal conhece, regiões de produção cultural fenomenal... e que muito menos o Brasil evangélico conhece, pois geralmente não olha pra dentro do Brasil, e sim para fora.

Além disso, a gente mora dentro de uma cidade que "se basta". Rio de Janeiro, umbigo do Brasil. Sinceramente... a gente tá aqui dentro e não faz a menor ideia do que seja o Brasil. Pra quem não pretende sair deste mundo aqui, pra que conhecer mais do que isto? Beleza. Pra quem tem planos de ir morar fora do Brasil, posso concordar que o processo de inculturação deva acontecer de outra forma. Então pra que conhecer o Brasil de verdade, não é mesmo? Rs.

Mas pra quem pretende se dizer brasileiro, samba é só o começo da caminhada, galera...

Graças a Deus, depois que vim morar no Rio, aprendi a gostar de samba. E vou confessar que eu não sabia apreciar a beleza negra, porque em Belém a maioria da população é de brancos, pardos, índios e japoneses [sic]. Ainda bem que meus conceitos mudaram e hoje eu namoro uma mulata linda que Deus me deu... ô bênça! Como disseram Martinho da Vila e Zeca Baleiro: "Salve a mulatada brasileira! Salve! Salve!"

Recomendo 3 músicas brasileiras – de verdade rs – compostas por cristãos evangélicos, um deles judeu. Um baião, um carimbó e um canto "sertanez". Desejo que elas os inspirem, como inspiram a mim sempre que ouço. Se quiserem, podem ouvir e acompanhar as letras nos links:

Antes que Seque a Flor
Céu na Boca (Brasília, DF) - baião (inspirado em Eclesiastes 11-12)

Esta Cidade
Arlindo Lima e Tallita Barros (Tucuruí, PA e Belém, PA) - carimbó (inspirado no texto do profeta Sofonias)

Campo Branco
Elomar Figueira de Mello (Vitória da Conquista, BA)

Um forte abraço.
André Coelho

sábado, 26 de março de 2011

Visão do horror e visão da esperança: o desastre de Fukushima e as visões de Ezequiel

O mundo foi tomado há exatos 15 dias pela notícia de um forte terremoto seguido de tsunami no nordeste do Japão – talvez o mais terrível terremoto da história desse país.

A polícia japonesa contabilizou até hoje 10.151 mortos e mais de 17.053 desaparecidos como conseqüência do desastre natural que abalou a região e provocou ainda um grave acidente nuclear em um dos reatores nucleares da usina elétrica da província de Fukushima.

Os comentários em relação ao acidente têm sido os mais diversos. Há quem atribua a tragédia a uma reação da natureza à ação devastadora do homem no planeta Terra. Há quem a considere um castigo divino, ou um sinal do fim dos tempos. Há quem a tome como apenas mais um evento da natureza que, infelizmente, atingiu uma usina nuclear.

Leituras e leituras sobre a catástrofe não irão vencer a visão de um homem que está dirigindo o seu carro sobre uma rodovia e se vê repentinamente tomado de todos os lados por um tsunami devastador. Também não darão respostas ao coração da mãe que viu sua casa ruir, seus filhos perderem-se no entulho da onda gigante e que agora está sozinha, sem abrigo e sem família.

A pergunta inevitável que, precoce ou tardia, vem à mente é “Onde estava Deus quando isso aconteceu?”. Será que foi Deus quem moveu a natureza contra o próprio homem, como se fosse um castigo? Ou será que Deus apenas estava de braços cruzados, observando enquanto tudo acontecia, sem tomar atitude alguma? Será que Deus está cego ao sofrimento do homem?

A vida e o ministério do profeta-sacerdote Ezequiel podem-nos ser muito inspirativas nesse sentido. Ezequiel é tido hoje pelos cristãos como um dos maiores profetas da antiguidade e pelos judeus como um dos principais sacerdotes a estabelecer os pilares da religião judaica. De qualquer forma, foi um homem que soube conciliar o ministério profético (oráculos divinos, denúncia de injustiça social, chamada ao arrependimento, etc.) com o ministério sacerdotal (ensino, serviço do templo, separação entre sagrado e profano, etc.).

Mas o que dá a Ezequiel as “credenciais” que o tornam relevante ao falarmos de catástrofes são as visões descritas em seu livro. Sobre as narrativas das visões de Ezequiel paira sempre uma atmosfera de horror sagrado diante do mistério do divino. A visão do vale de ossos secos – que, ao sopro divino, se reanimam, começam a criar juntas e medulas, músculos, carne e voltam à vida, formando um enorme exército – é um bom exemplo.

Ao homem a quem Deus deu visões de horror, certamente também ele deu respostas e palavras de conforto e esperança que vencem o horror, vencem o mistério que é a própria atuação divina e tangem a alma que está estarrecida diante de uma tragédia.

Refletindo sobre as perguntas acima, encontramos algumas respostas no livro de Ezequiel e em outros livros da Bíblia que nos permitem fazer as seguintes afirmações:

1. Deus não utiliza a natureza contra o homem

a) o homem é quem manipula a natureza a seu desfavor: Em primeiro lugar, Deus não utiliza a natureza contra o homem, mas é o próprio homem, a quem Deus imbuiu de um espírito criador, quem manipula e modifica a natureza, às vezes a seu favor, às vezes a seu desfavor;

b) o homem é a coroa da criação, mas também está sujeito à natureza: O livro do Gênesis conta-nos sobre quando Deus criou o mundo. Deus criou o homem e o colocou como coroa sobre toda a criação. Das criaturas de Deus, o homem é a mais complexa, a mais inteligente e a única que Deus criou à imagem e sua semelhança. Porém, ainda que seja a “coroa” da criação de Deus, o homem está sujeito à natureza. O homem não consegue evitar, por exemplo, que o tempo passe – o tempo é definido pela natureza dos astros. O homem também não pode evitar que o outono passe e venha o inverno, muito menos pode evitar o movimento das marés, o ciclo das águas, o dia e a noite. A natureza está em constante movimento, e isso faz parte de sua saúde; não é uma catástrofe. O homem precisa admitir que também está sujeito a esse movimento da natureza em torno de si.

c) Deus tem um pacto de vida com homem, de não destruí-lo por meio das águas: Vamos mais uma vez ao Gênesis. A Bíblia conta que, certa vez, Deus olhou para a humanidade, viu a sua maldade e resolveu destruir todos os homens, preservando a vida de apenas uma família, a de um homem chamado Noé, que sobreviveu porque construíra um barco, conforme a ordem de Deus. Ao final dessa narrativa, Deus coloca no céu o arco-íris e faz um pacto com Noé, de que nunca mais irá destruir a humanidade por meio das águas. Por esse motivo, não devemos pensar que um desastre como a morte de milhares de pessoas por um tsunami tenha sido causado por Deus.

2. Deus não está de braços cruzados

a) a natureza anuncia a cada dia o mover das mãos do Senhor: O Salmo 19 nos diz que o céu anuncia a obra das mãos de Deus, e que um dia fala sobre isso ao outro dia, assim como uma noite fala à noite seguinte. Isso é uma metáfora poética para nos afirmar que a criação é a primeira revelação de que Deus existe e de que ele não está de braços cruzados – pois dá a cada dia ao homem o calor do sol e o descanso da noite. Deus está, portanto, em constante movimento para abençoar o homem. Deus não está, de forma alguma, sentado em uma poltrona, como se fosse um espectador numa platéia-de-uma-pessoa-só, assistindo ao espetáculo da vida humana (tragédia ou comédia grega?), comendo pipoca e tomando guaraná.

b) o tempo de Deus não é o nosso tempo: O apóstolo Pedro (2Pe 3.8) afirma que, para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Nós, seres humanos, estamos limitados, “presos” à contagem de dias do planeta Terra. Mais uma vez, Deus não vê passar o mundo como passa uma escola de samba que atravessa a avenida Marquês de Sapucaí e tem um tempo cronometrado para cumprir seu papel. Deus vê todos os tempos: começo, meio e fim. E novo começo. E Deus já preparou aquilo que ainda há de vir.

c) Deus pede que o homem tenha atitude: Deus deseja que o homem movimente-se no sentido de aproximar-se dele. É necessária uma constante renovação interior: é preciso um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 18.31).

3. Deus não está cego

a) Deus vê o nosso sofrimento: Já que estamos falando em sofrimento, que tal falarmos em pecado? Sim, o pecado também leva ao sofrimento, a um sentimento enorme de culpa e a um distanciamento de Deus. Deus vê o nosso pecado? Sim, com certeza, e disso não temos dúvida. O próprio Espírito nos testifica de que, quando pecamos, estamos em um caminho errado e que Deus tem conhecimento disso. Da mesma forma que Deus vê o nosso pecado, ele vê o nosso sofrimento.

b) Deus não tem prazer no nosso sofrimento: A Bíblia afirma em Ezequiel 18.32 que Deus não sente prazer com a morte de ninguém, portanto Deus não tem prazer no nosso sofrimento, assim como não teve prazer na morte daqueles quase 11 mil homens no Japão.

c) O homem tem responsabilidade pelo seu pecado: Embora um terremoto seguido de tsunami seja uma ocorrência comum na natureza e provavelmente não esteja relacionada à ação do homem ou de Deus, não podemos fechar os olhos ao fato de que, com o nosso pecado, “cavamos a nossa própria cova”, como dizia um professor meu na faculdade de Arquitetura. Quando pecamos, ofendemos a Deus. Mas, muito mais do que isso, o pecado nos coloca distantes dele. Quando pecamos contra o nosso próximo, o pecado nos distancia do próximo.

E quanto à natureza? Existe pecado contra a natureza, contra a criação? Certamente, quando pecamos contra o planeta terra, nos distanciamos da natureza e de seu Criador, e apressamos mais um pouquinho o dia da nossa morte, ou talvez da morte de alguém próximo a nós. É necessário que cada um assuma a responsabilidade que tem sobre seu próprio pecado (Ez 18.1-4).


Uma visão da esperança

Na visão do vale de ossos secos narrada por Ezequiel, aquilo que era horror se converte em vida. Deus não deseja que a humanidade torne-se e permaneça como um monturo de ossos ressequidos e sem vida alguma. Deus não deseja que o homem permaneça afastado dele (que é a morte espiritual).

O profeta Ezequiel, em seu livro, anuncia pela primeira vez um Messias que será um “pastor” (Ez 34.23; 37.24), em vez de um “rei”. Anuncia que a glória de Deus voltará a preencher o seu santo Templo (Ez 43) e que o próprio Deus dará ao homem novo coração e novo espírito (Ez 11.19; 36.26). Deus estabelecerá uma nova aliança, mas não para recompensar o povo por sua “volta” para ele, e sim por pura benevolência e graça (16.62-63).

O Deus que Ezequiel anuncia é um Deus que concede perdão ao homem em graça. É um Deus que abomina o mal e o pecado, mas um pastor que cuida do seu rebanho como quem cuida de ovelhas que não sabem por onde devem andar. Um Deus que constrói um Templo novo, estabelece uma nova aliança, dá novo coração e novo espírito.

O Apocalipse de João nos fala nesse mesmo Deus, que um dia irá criar novo céu, nova terra. Um Deus que, em pessoa, enxugará dos olhos dos homens toda lágrima. E não haverá mais morte, nem choro, nem clamor, nem dor. Porque Deus fará novas TODAS as coisas (Ap 21.1-7).

Se no tempo presente não temos respostas, se a morte de mais de 10 mil pessoas em um único dia por conta de um desastre natural nos assusta, devemos descansar a nossa alma em Deus, sabendo que estamos ainda no tempo das “primeiras coisas” (Ap. 21.4), que um dia irão passar. Devemos permanecer seguros de que, em Cristo, a morte será apenas a separação do nosso corpo, pois na eternidade iremos habitar com ele.
Encerro com uma poesia, que é uma música, de Vital Lima, chamada “Sobreviventes”:



As cidades sabem
que as explosões
podem destruir as casas,
soterrar os sentimentos,
nossas canções.

Mas as cidades também sabem
que um coração,
um coração teimoso
reconstruirá escombros
e as nossas canções.

E que há de florescer outra realidade
a plantar-se entre os amantes
e sobreviventes.


sábado, 12 de março de 2011

sobre a vida (Leonardo Boff)

Jesus não veio para inventar uma nova religião, mas para trazer uma nova vida. Então vocês têm que aproveitar a vida, amar a vida, amar a vida em comunidade. [...] A vida está ameaçada porque não é amada.

Leonardo Boff

Rio de Janeiro
27 de outubro de 2008


sobre derrota e vitória (Leonardo Boff)

Nós fomos derrotados, mas não estamos vencidos. Nossa árvore talvez morreu, mas ficou a semente. Eu me sinto uma semente. A semente tem todo o vigor da árvore. E vamos ao encontro do derrotado, o vencido, o ressuscitado: Jesus, o Cristo cósmico, filho de Deus. Ele foi o primeiro derrotado, que foi ressuscitado para nos dar esperança da libertação.

Leonardo Boff

Rio de Janeiro
27 de outubro de 2008


sobre Roma (Leonardo Boff)

É fácil tornar-se ateu em Roma. Em Roma, eles estão mais próximos dos palácios dos césares, mais longe do barquinho de Pedro. Eles estão mais próximos dos palácios e mais afastados de Deus.

Leonardo Boff
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2008


sobre a verdade (Leonardo Boff)

Quem possui a verdade está condenado ao fundamentalismo.

Leonardo Boff

Rio de Janeiro
27 de outubro 2008


sobre a libertação (Leonardo Boff)

A liberdade nunca é dada, ela deve ser conquistada. Por isso: libertação.

Leonardo Boff

Rio de Janeiro
27 de outubro de 2008



sobre Deus (Rubem Alves)

Uma vez me perguntaram se eu acredito em Deus. Eu respondi: "A saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Chico. Qual é a mãe que ama mais? É que arruma o quarto para o filho que vai voltar, ou a que o arruma para o filho que nunca vai voltar?

Rubem Alves

Rio de Janeiro
27 de outubro de 2008



sobre altares (Rubem Alves)

Eu construo meus altares à beira do abismo. O abismo continua escuro e silencioso; a despeito disso, eu construo meus altares – altares de música e de poesia. Pois o fogo me aquece e me ilumina.

Rubem Alves

Rio de Janeiro
27 de outubro de 2008


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O corpo: local de adoração, graça e saúde*

André de Barros Coelho

Que os cuidados com o corpo são um ensinamento bíblico desde o Antigo Testamento, disso não há dúvidas. Vale sempre lembrar as diversas leis instituídas sobre a qualidade dos alimentos, o cuidado e asseio diante de diversas doenças, os cuidados com a casa e outros diversos preceitos (conferir Levítico 11-15; Deuteronômio 12.15-32, 14.3-21, 22.13-23.14), muitos dos quais são seguidos até hoje por diversos grupos religiosos.

Também não é novidade que o nosso corpo é templo do Espírito Santo. O Novo Testamento afirma que o Espírito de Deus habita em nós, e que cada um de nós é templo (1Coríntios 3.16, 6.19), o que significa, entre outras coisas, que nossa vida e nosso corpo são um local de adoração a Deus, lugar de sacrifício e de graça.

OS HOMENS MORREM MAIS DO QUE AS MULHERES – Desde que o Governo Federal começou a veicular a campanha da Política Nacional de Saúde do Homem, há quem se pergunte: – Pra quê tanto alarde? Até que ponto isso tudo é necessário?

É o próprio Ministério da Saúde quem se adianta e responde. No Brasil, a cada três mortes de pessoas adultas, duas são de homens (57,8%). Entre os jovens com 20 a 30 anos de idade, o número de homens sobe para quatro a cada cinco mortes. Além disso, os homens vivem em média sete anos a menos que as mulheres.

A taxa de mortalidade por câncer (especialmente de pele e de próstata) entre a população do sexo masculino cresceu quase 200% entre 1980 e 2005. Além do câncer, entre as principais causas de morte em 2005, estão as doenças isquêmicas do coração (entre elas o infarto do miocárdio), doenças cerebrovasculares, homicídios, suicídios e quedas acidentais.

Mesmo que não sejam surpresa, esses não são os únicos números que fazem soar o alarme de cuidado!... Dentre as causas de internação de homens de 15 a 59 anos nas unidades do SUS em todo o Brasil no ano de 2006, estão em primeiro lugar as diferentes manifestações de violência (mais de 800 mil casos) e os transtornos mentais e comportamentais (quase 370 mil casos).

O HOMEM BRASILEIRO CUIDA POUCO DE SI MESMO – Os números da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU-SP) mostram que 50% dos homens vai ao médico por pressão da esposa ou namorada. O preconceito (quando o homem se acha invulnerável a doenças) e o medo (quando ele receia receber uma má notícia, por exemplo) estão entre os fatores que reduzem a ida dos homens ao médico em relação às mulheres. “(...) os homens, por uma série de questões culturais e educacionais, só procuram o serviço de saúde quando perderam sua capacidade de trabalho.”, afirma José Gomes Temporão, ministro da Saúde.

As pesquisas do Ministério da Saúde revelam ainda que, na hora de fazer o planejamento familiar, o peso continua a recair sobre as mulheres. Entre 2007 e 2008, o número de mulheres que se submeteu a cirurgias de esterilização foi o dobro do número de homens.

Para completar, o sedentarismo, um dos grandes fatores de risco para doenças crônicas, alcança hoje 26,3% da população brasileira (29,5% entre os homens). Na terceira idade, o número ultrapassa os 50%.

Na opinião do secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Alberto Beltrame, os homens brasileiros “foram educados para não chorar e manter a couraça de que são ‘machos’. Também alegam que são os provedores e têm medo de que se descubram doenças, mas hoje as mulheres são tão provedoras quanto eles”.

O HOMEM É PROVEDOR – Ainda que o homem não seja mais a única âncora financeira nas famílias brasileiras, especialmente nos grandes centros urbanos, dividindo esse posto com as mulheres, é um princípio bíblico que o homem seja, da casa, o provedor de amor.

Segundo o conselho de Paulo às comunidades cristãs de Éfeso e Colossos (Efésios 5.25,28; Colossenses 3.19,21), o homem deve amar a sua mulher e não se irritar com ela. Não apenas isso, precisa amá-la como ama ao seu próprio corpo. Mais ainda, o pai não deve irritar a seus filhos.

Cuidar para que a esposa e os filhos tenham saúde física e emocional é um papel do homem. O amor que um homem fornece à sua esposa vai ser percebido pelos filhos na maneira como a mãe cuida deles. O amor que um pai fornece aos seus filhos vai torná-los mais seguros de que são amados e de que estão protegidos. Da mesma forma, o amor que o homem fornece à sua esposa e filhos, bem como o amor que um jovem fornece a seus pais e irmãos, pode reverter-se em amor e cuidado também deles sobre a sua própria vida.

O fato de que, nos dias de hoje, a mulher cada vez mais participa das finanças do lar (inclusive como provedora de sustento), deve também abrir espaço para que o homem cuide de si mesmo de forma mais equilibrada – seja exercitando o corpo, seja valorizando o tempo de repouso, seja cuidando de sua mente e suas emoções.

O REPOUSO E O LAZER NA BÍBLIA – É comum que o muito trabalho torne-se, na vida do homem, uma espécie de areia movediça. O autor de Eclesiastes afirma que, após considerar todo o trabalho que ele, com fadiga, havia feito, percebeu que tudo era vazio de sentido, como se ele estivesse correndo atrás do vento (Eclesiastes 2.11). Quanto mais trabalha, e quanto mais espaço conquista, mais espaço o homem quer, de forma que o equilíbrio entre o sustento familiar e o repouso necessário – duas necessidades – às vezes foge ao controle do próprio homem.

No Israel antigo, havia um princípio: separar um dia por semana para o descanso. Certamente todos sabemos que, segundo o relato bíblico, quando Deus criou o mundo, o fez em seis dias e descansou no sétimo (Gênesis 2.2-3). O Pentateuco, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, traz-nos diversas posturas quanto ao repouso do corpo (Êxodo 35.1-3), assim como quanto ao repouso da terra em que se cultivem animais e plantas (Levítico 25.1-17).

De acordo com essas posturas, o homem deveria trabalhar seis dias e descansar no sétimo, santificando esse dia ao Senhor. Também deveria o homem, após trabalhar durante seis anos, separar o sétimo ano para o descanso solene da terra. Tudo isso nos mostra que, para o povo judeu, o descanso era sagrado.
Também o livro de Eclesiastes nos traz conselhos muito especiais. Na compreensão do sábio, autor do livro, é um dom de Deus que o ser humano possa comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho. Afinal, alegrar-se em suas próprias obras é a recompensa que o homem tem pelo seu próprio trabalho, dado por Deus (Eclesiastes 3.9-15,22).

O equilíbrio na vida é valorizado tanto pelo sábio, que propõe a moderação em tudo (Eclesiastes 7.15-22), quanto pelo apóstolo Paulo, que propõe a paciência, a mansidão e o domínio próprio como fruto do Espírito Santo, que habita no crente (Gálatas 5.22-23).

Dar ao corpo o tempo de descanso de que ele necessita e dar à mente o lazer que também lhe é necessário devem ser imperativos do homem, especialmente o homem cristão. Na conclusão de seu livro, o sábio de Eclesiastes afirma que Deus pedirá contas a cada homem pela maneira como tiver aproveitado a sua juventude (Eclesiastes 11.9-10).

Os números do Ministério da Saúde mostram que a taxa de suicídios entre os homens brasileiros cresceu, nos últimos 30 anos, aproximadamente 40% e que quase 370 mil homens foram internados em 2006 por transtornos mentais e comportamentais, o que indica que o homem brasileiro não está doente apenas fisicamente, mas também emocionalmente.

Diante disso, não há dúvidas de que é uma tarefa do homem cristão andar na contramão desses números, fazendo de seu corpo um local de adoração e graça, e de sua vida e seu lar um lugar de saúde.


* Texto publicado na revista Homem Batista, primeiro trimestre de 2010.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Salmo Brasileiro

André de Barros Coelho

Das profundezas clamo a ti, Senhor.
Meu coração está coberto de nuvens negras,
como as planícies da Amazônia.
Meus olhos escondem tantas lágrimas
que os mais profundos rios não poderiam imaginar.
Minha garganta está mais seca que o chão dos sertões.
E eu nem mesmo sei explicar o que se passa comigo.

Só tu, Senhor, conheces meu coração,
pois da argila o fizeste,
antes que ele pulsasse pela primeira vez.
E agora por que não me respondes?

Chora, minha alma, e espera pelo Senhor.
Pois sabes que ele um dia vem
inundar toda esta terra seca e morta dentro de ti.
Clama, das tuas profundezas, e ele te ouvirá.

Porque só ele é a tua força.

Estácio, Rio de Janeiro, RJ
8 de janeiro de 2011


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Natal Amazônico (se Jesus fosse paraense...)


“E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, para que todo o mundo participasse do Censo. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. E subiu também José, da cidade de Santarém, à cidade chamada Belém, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.

E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em fraldas, e deitou-o num tacho de farinha de mandioca, porque não havia lugar para eles na palafita.

Ora, havia, na região das ilhas, pescadores ribeirinhos que trabalhavam durante as vigílias da noite. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor.

E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois vos nasceu hoje, na cidade de Belém, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em fraldas, e deitado num tacho.

E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.

E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pescadores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos fez saber.

E foram apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado no tacho. E, vendo-o, divulgaram a palavra que acerca do menino lhes fora dita; e todos os que a ouviram se maravilharam do que os pescadores lhes diziam. Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.

E voltaram os pescadores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes havia sido dito.”
(paráfrase de Lucas 2.1-2)
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Me impressiona e inspira o fato de que Jesus era alguém do povo, um homem nascido numa cidade real e histórica, mas pequena em relação a Jerusalém; criado numa região periférica da nação, a ponto de Natanael ter perguntado de forma preconceituosa: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1.46). Um jovem falando em parábolas sobre o Reino de Deus, pregando o amor e a paz.

Gosto de imaginar que, se Jesus fosse brasileiro, e se fosse paraense, teria sido visitado, ainda bebê, por alguns pajés que o teriam presenteado com vasos de cerâmica decorada, patchouli e banhos de ervas. Diferente, não? Pensar que ele foi visitado por magos do oriente, que certamente estudavam os sentidos ocultos dos astros e outras coisas.

Se Jesus fosse paraense, teria navegado muitas vezes entre Belém do Pará, Macapá, Santarém e Manaus, visitando as populações suburbanas e ribeirinhas, onde teria feito seu ministério, multiplicando farinha e tucunaré para alimentar a comunidade. Entre seus discípulos mais chegados, alguns pescadores, um fiscal da receita federal e um ativista do MST.

Em sua última janta (na Bíblia chamada de “ceia”), teria tomado a vasilha de açaí nas mãos, dizendo aos discípulos: “Este é o novo testamento no meu sangue; fazei isto todas as vezes que beberdes, em memória de mim.” E, da mesma forma teria feito com a farinha de tapioca, dizendo: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.” (1Coríntios 11.24-25)

Teria sido traído por um deles, que o entregou à Polícia Federal em troca de um salário mínimo, e teria morrido em Brasília, junto a ladrões, acusado de causar perturbação pública.

Nós, brasileiros, provavelmente teríamos ficado sabendo de sua morte naquele mesmo dia, via rádio, televisão, jornais e internet. Muitos iriam rir, dizendo: “Morreu mais um maluco.” Outros diriam, como Natanael: “Pode vir alguma coisa boa do Norte?”. Outros iriam ler e ouvir sobre o seu ministério e dizer: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.” (Marcos 15.39).

Mas eu me pergunto seriamente: qual seria a minha atitude se Jesus vivesse nos dias de hoje? Eu o escutaria? Eu o abrigaria em minha casa? Eu andaria com ele? Eu me arriscaria a ser confundido com um de seus seguidores “malucos”? Eu comeria com ele à mesma mesa? Aceitaria andar como ele andou, misturado com o povo, ensinando os pobres, condenando os ricos e contrariando os sacerdotes?

Eu sou, ou não sou um discípulo de Jesus?

Encerro com este texto intitulado Bênção Franciscana, atribuída a Francisco de Assis. No advento desde ano de 2011, faço desta bênção a minha oração para a vida de cada um que me lê, assim como para mim mesmo.

Que Deus te abençoe com
um desconforto inquietante sobre as respostas fáceis,
as meias verdades e as relações superficiais,
para que possas buscar a verdade corajosa
e viver profundamente em teu coração.

Que Deus te abençoe com sagrada raiva à injustiça,
à opressão e à exploração de pessoas para que possas trabalhar incansavelmente pela justiça,
liberdade e paz entre todas as pessoas.

Que Deus te abençoe com o dom de lágrimas
para derramá-las com aqueles que sofrem de dor,
rejeição, fome ou a perda de tudo aquilo que eles amam,
para que possas estender a mão para lhes dar conforto
e transformar a sua dor em alegria.

Que Deus te abençoe com a tolice suficiente
para que creias que realmente podes fazer diferença neste mundo,
para que possas com a graça de Deus,
fazer aquilo que os demais insistem ser impossível.

E que a benção de Deus, Suprema Majestade e nosso Criador,
Jesus Cristo a Palavra encarnada que é o nosso irmão e Redentor,
e o Espírito Santo, o nosso Advogado e Guia,
seja contigo e permaneça contigo e com todos,
hoje e para sempre.

Amém.

domingo, 7 de novembro de 2010

A todos os sotaques: teologia e ministério cristão no Brasil


Penso que um ministério cristão no Brasil que não alcance as feridas sociais do brasileiro – para tratá-las, aliviá-las e, quiçá, curá-las por meio da ação da igreja e do Espírito Santo – não será um ministério completo.

Será que a igreja e seus ministros devem trabalhar para alcançar resultados, como numa relação de causa e efeito? Certamente que sim. Trabalhar de forma ordenada é necessário e útil ao trabalho da igreja. Porém é necessária muita cautela, pois alcançar resultados mensuráveis nunca deve ser tornar, para a igreja, um fim em si mesmo.

A finalidade da igreja deve ser, como diz o lema da Missão Integral, levar o evangelho todo ao homem todo, no mundo todo. O evangelho todo não se resume na mensagem salvífica da morte de Jesus, porém contém necessariamente essa mensagem. Alcançar o homem todo não indica apenas todos os homens, mas também alcançar o homem em sua totalidade, tangendo cada recôndito da alma desse homem, desde seu mais íntimo pensamento até a cultura em que está inserido.

A necessidade de afinar o ministério cristão com o trabalho social da igreja emerge da carência de identidade na consciência histórica e cultural do homem de hoje. Um povo sem memória é um povo sem identidade, sem consciência de sua cultura, de seu papel social e de seu poder de mobilização.

Entretanto, quando o homem reconhece seu papel social e decide construir a partir de hoje a memória de amanhã (que será a identidade de seus filhos), então ele está construindo um caminho de esperança e de salvação para si próprio e para sua cultura.

Nesse sentido, a igreja brasileira tem o papel fundamental de restabelecer no coração de cada patrício sua identidade e a esperança da salvação, seja pela transformação do mundo em que vive, seja pela restauração de sua própria alma, mediante o poder do Espírito Santo – ou seja, não apenas para tirar o homem da pobreza e opressão em que vive, mas para ao lado disso alcançá-lo com o Evangelho de Jesus, motivo primeiro de nossa missão.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Incêndio: a parte que não sai no jornal


"Depois de medicada, retirou-se pro seu lar
– aí a notícia carece de exatidão.
O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou.

[...] Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal,
a dor da gente não sai no jornal."
(Chico Buarque - Notícia de Jornal)

Esta manhã, meus irmãos e eu fomos poupados de uma tragédia.

Ao chegar no prédio, à hora do almoço, vi pessoas entrando e saindo, um alvoroço diferente do comum. Os elevadores estavam desligados, havia sujeira, água e cheiro de fumaça pra todo lado.

– Foi o incêndio! – logo alguém me disse.

Que sensação estranha! Subir as escadas sem saber exatamente o que houve. Encontrar o corredor do apartamento cheio d'água. E, em seguida, saber que o fogo foi perto do nosso apartamento...

Fui até o 5º andar, onde o fogo começou. Na sala do apartamento, um sofá chamuscado e algumas cadeiras que restaram. Uma estante com algumas coisas recolhidas. Os quartos e banheiro, reduzidos a pó e cinzas, ainda ferviam de calor.

Em pouco tempo, fiquei sabendo como acontecera: o casal estava dormindo, pela manhã, quando percebeu algo estranho. Os dois se levantaram e foram até o quarto de hóspedes. Ao abrirem a porta, viram a cama já em chamas. Foi o tempo exato de saírem de casa e o fogo entrou no quarto deles – um pouco mais, e não teriam conseguido sair.

Trouxeram a mangueira de incêndio e conseguiram pelo menos molhar alguns móveis na sala, que não foram atingidos pelo fogo. Em pouco tempo, chegaram os bombeiros e conseguiram evitar que algo pior acontecesse.

Algo pior?

Sentada numa das cadeiras, olhando as cinzas a que se reduzira a sua casa, a moradora falou:

– Por quê? Por quê? Tanta gente ruim neste mundo, fazendo coisas erradas, tanto político roubando dinheiro do povo... e a gente aqui, ajudando as pessoas, tem que passar por isso...

A fumaça e o calor mataram o passarinho, que seria solto ainda esta semana. O fogo pegou alguns dólares, que estavam guardados. As chamas lamberam cabelos, lanharam carne, devassaram alguns sonhos.

Diante de uma tragédia, não há explicação, não há conforto, não há sossego para a alma.

Sim, poderia ter sido pior. O fogo poderia ter tomado todo o prédio. Poderia ter destruído outros apartamentos. Alguém poderia ter morrido.

Mas penso que não se mede o sofrimento dos outros. A dor dói, e pronto.

Um livreto repousava sobre o sofá, cheio de fuligem:

– É o livro de sabedoria. – disse a moradora – O fogo não pegou ele.

Uma vizinha abriu em uma página aleatória, que dizia: "Como viver eternamente." Algo sobre observar o dia de hoje, aprender com suas lições e ajudar as pessoas que estiverem por perto.

Nada tão aleatório poderia ter sido mais próprio. Como disse um sábio, melhor é ir a uma casa onde há luto do que a uma casa onde há festa, porque a morte faz as pessoas pensarem na vida. (Eclesiastes 7.2)

Terá sido o acaso? Existe o acaso?

Quando a vida é a única coisa que resta, não adianta chorar.

Quando falta o braço, a mão amiga não tem preço.

Quando Deus é o único horizonte, erguer os olhos e dar o próximo passo é sinal de esperança e de vida.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Equinócios (ou Vilarejo: eu vi o céu)

Belém-PA, Cidade Velha. André Coelho, 2006.

Quem freqüenta o Farinha de Tapioca sabe que eu não tenho o costume de postar aqui letras de música. Não é que eu não goste. Na verdade, gosto tanto que criei um blog exclusivo para postar as letras das minhas músicas favoritas, chamado Das Canções a que Sou Preso.

Mas hoje, no comecinho da noite, enquanto eu fazia meu trajeto diário até a colina do Seminário do Sul, onde estudo, cruzando de ônibus as ruas da Tijuca, lembrei-me de uma de minhas canções favoritas da Marisa Monte (daquelas que vivem atadas à alma mesmo) e que, geralmente me remete à Cidade Velha de Belém, ou a Óbidos.

E pela primeira vez visualizei o céu (o céu cristão mesmo, também chamado de paraíso) de uma forma que nunca havia feito antes, profundamente espiritual e tupiniquim:

VILAREJO
Marisa Monte, Pedro Baby, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown


Há um vilarejo ali,
onde areja o vento bom.
Na varanda, quem descansa
vê o horizonte deitar no chão
pra acalmar o coração.
Lá o mundo tem razão;
terra de heróis, lares de mãe,
paraíso se mudou para lá.

Por cima das casas, cal;
frutos em qualquer quintal.
Peitos fartos, filhos fortes,
sonhos semeando o mundo real.
Toda gente cabe lá,
Palestina, Shangri-lá.

Vem andar e voar...

Lá o tempo espera,
lá é primavera.
Portas e janelas
ficam sempre abertas
pra sorte entrar.
Em todas as mesas, pão;
flores enfeitando
os caminhos, os vestidos,
os destinos. E essa canção
tem um verdadeiro amor
para quando você for.

Hoje é Equinócio. Dia e noite do mesmo tamanho. Evento que só acontece duas vezes ao ano e que marca exatamente a entrada do outono (em maio) e da primavera (em setembro).

Não gosto dos dias longos demais do verão. As noites estendidas do inverno até que me agradam bastante.

Mas, no céu que eu imagino, todo dia é Equinócio, como acontece na linha do Equador.

João, na Ilha de Patmos, visualizou o céu com ruas de ouro.

E você?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Solo de um ribeirinho: a mesma periferia (impressões sobre o filme 5x Favela)

Diante da realidade exposta pelo diretores Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra no filme 5x Favela – agora por nós mesmos, vem a mim uma série de perguntas iniciais: Qual é o Brasil? O que os brasileiros entendem por Brasil e brasilidade? Qual a identidade do brasileiro? O que faz do Brasil Brasil, em qualquer lugar do Brasil?

O filme tem um ar ao mesmo tempo côntico – dadas as narrativas, que lembram alguns contos de Carlos Drummond de Andrade e Lígia Fagundes Telles – e profundamente realista, numa descrição minuciosa da vida nas favelas cariocas, a qual chega a ser ainda mais verossímil do que nas produções Tropa de Elite (José Padilha, 2007) e Cidade dos Homens (Rede Globo, série, 2002-2005).


O quinto episódio do filme, Acende a Luz, dirigido por Luciana Bezerra, foi para mim o mais marcante, não pelo enredo, mas pela simbologia da idéia central, das cenas e dos argumentos.

É véspera de Natal e os moradores do morro estão sem luz. Os técnicos da companhia de energia elétrica não deram conta de restabelecer o funcionamento de um equipamento e, num esforço para tentar garantir que o serviço seja concluído antes do anoitecer, os moradores “seqüestram” um dos técnicos.

Mas a estratégia não surte o resultado desejado e, depois de muita insistência, tudo o que o técnico consegue é fazer a luz funcionar em apenas um poste em todo o morro. E é exatamente sob a luz deste único poste que a vizinhança vem comemorar o seu Natal.

A cegueira que se impõe pela falta da luz. A esperança e a espera pelo seu brilho. Uma luz dada aos homens na noite de Natal. A festa que a todos congrega. O encontro dos diferentes sob a luz.

São todos certamente temas muito interessantes para uma reflexão sobre o episódio e sua relação com o próprio sentido do Natal de Jesus.

Mas outro detalhe me vem.

Na trilha sonora de Acende a Luz, a primeira música executada chama-se Solo do Ribeirinho. Ao contrário do que a própria proposta inicial do filme possa sugerir, a música não é um funk carioca, mas uma guitarrada, ritmo tipicamente paraense, filho “pobre” das antigas guitarradas portuguesas, irmão do carimbó, e parente não muito distante do merengue caribenho, do brega paraense e da jovem guarda – referências comumente citadas pelos tradicionais mestres da guitarrada, como Aldo Sena, Curica e Vieira, ou pelos apreciadores do ritmo.

E surge uma nova questão: o que um ritmo tradicional muito pouco conhecido, que não é nacionalmente popular como a Banda Calypso, executado por mestres tocadores de viola do interior do Pará, tem a ver com a favela carioca?

Um caminho de resposta está em olhar para a periferia. O que nos dizem os moradores da favela da maré? O que nos dizem os ribeirinhos do rio Tapajós? Quais as cores e as dores dos sertanejos do Caicó e dos pescadores de Paraty? Que anseios trazem no coração os guarani do Rio Grande do Sul e os negros do Silêncio do Matá, no coração da Amazônia, próximo a Óbidos?

No princípio de 2008, acompanhei a notícia dos suicídios frequentes em tribos indígenas do Mato Grosso do Sul: em apenas um mês, mais de dez jovens se suicidaram. Um deles, que havia se enforcado, pendia em uma corda amarrada a um galho de árvore e trazia sob os pés, no chão, a inscrição: “Eu não tenho lugar”.

O anseio é um só, o grito é um só. É o grito da periferia pelo espaço, pela liberdade, pelo respeito. É um anseio, um profundo anseio, por dias melhores. Por um dia em que a luz brilhe tanto, que não mais sejam necessárias a luz do sol, da lua ou dos bulbos das lâmpadas incandescentes.

Concluo este artigo com um poema que é uma letra de música. Na verdade, um lundu¹.

O poema fala de sede, de água e de uma vida que corre como um rio.

Para o coração dilacerado e ressecado pela pobreza e pelo desrespeito, há uma água tão pura que nem existe no mundo, mas que pode ser experimentada no coração de quem tem a Jesus.

É setembro, mês em que voltam as chuvas no Brasil. Esperança de fim das queimadas que assolam o país. Esperança de boa safra no próximo verão. Esperança de libertação para os pés que foram colocados de escanteio. Esperança de salvação para o coração do homem.


Alto Mar
Arlindo Lima

Começa o dia de novo,
o sol ainda finge de morto.
Minha vida é esse rio,
represa de desafio,
que o vento filtra os brios,
pois é necessário regar.

Vamos molhar,
água levar...

“A água da vida eu cedo”.
A sede afoga o moleque
e, quanto mais cedo ela cede,
mais cedo na pesca ele investe.
A profundeza estremece,
pois vamos ganhar alto mar.

Vamos pescar,
água levar...

Mas temo a maré quando baixa,
pois nem chuva forte lhe basta.
Eu me distancio da margem,
o barro é a minha imagem.
Então busco a fonte, verdade,
pra água da vida tomar

Vou me molhar,
água tomar...


Ouvir "Mestres da Guitarrada - Solo do Ribeirinho"


Ouvir "Arlindo Lima - Alto Mar"



NOTAS
1. Lundu: dança ritmada por tambores, parte do folclore nortista paraense registrado por Mário de Andrade em suas viagens pelo Brasil nas primeiras décadas do século XX e ainda hoje muito apreciada nas rodas de danças folclóricas em Belém.


FONTES
5x Favela: agora por nós mesmos. Disponível em: www.5xfavela.com.br, acesso em 02 de setembro de 2010.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Comentário à 'Carta aberta ao blog "Um que Tenha" (e à mídia brasileira)'

André Coelho

(conferir postagem anterior: Cristofobia - vejam que situação!)



Essa é uma questão que já tá rolando há algum tempo, e que começa a se configurar em um fenômeno social seríssimo de discriminação e quase intolerância religiosa. E olha que, hoje, no Brasil, intolerância religiosa já é crime.

Não podemos admitir isso. Não é porque sejamos cristãos, pacificadores em nossa maioria, que tenhamos que aceitar calados essa separação que a mídia tem ensinado a sociedade a fazer, de que os cristãos (evangélicos) são pobres, burros e sem cultura.

As mulheres, os gays, os negros, os índios, todos têm conquistado seu espaço. Está na hora dos cristãos, com sabedoria, reinvidicarem os mesmo direitos, já que estamos numa república livre e pretensamente igualitária, ou que busque a igualdade.

Além disso, está na hora dos cristãos caírem em si e pararem de viver como se fossem guetos. Isso não é saudável, não é cristão, não é bíblico. Como bem citado aí em cima, a maré gospel brasileira de hoje vai completamente de encontro (contra) aos ensinamentos jesuanos de sermos "sal da terra e luz do mundo".

Só seremos a luz do mundo se estivermos no mundo. Só seremos sal da terra se permanecermos no mesmo "planeta" dos demais humanos. Foi por isso que Jesus não pediu a Deus que nos tirasse do mundo, porém que nos livrasse do mal.

É hora de parar, refletir, unir as forças e o pensamento para "brigarmos" por nosso espaço dentro da república brasileira. Precisamos espalhar esta idéia. Passar adiante situações como a vivida agora pelo Sérgio e pela Marivone. Levar essa discussão para nossas igrejas, para os grupos de estudo da Bíblia, salas de aula, universidades, consultórios, para as ruas, elevadores e para dentro de nossas casas.

Que Deus nos abençoe a todos com inquietação, discernimento, coragem, muita graça e muita paz.
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