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quinta-feira, 18 de julho de 2013

[DES]ENCONTRO

para Davi e Daniel Coelho

Que dos adeuses
restem apenas os olás
e da saudade
os abraços trocados.
Que tornem-se braços dados
os acenos
e sejam plenos
e sagrados:
palavra, dor e sentimento
que se haja trocado.

Que a tristeza do afastar-se
sirva apenas para lembrar
que houve o encontro
e que a saudade
se torne, não choro,
mas um trazer para perto
o que se foi.

Que amigos sejam irmãos.
Que irmãos sejam um só.
Para que não haja desencontro.

---
André Coelho
Macapá, 15 de julho de 2013




domingo, 19 de fevereiro de 2012

Corridinho

Adélia Prado

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

poeminha (perneta) para a lua

André Coelho




para Lua

queria fazer um poema
que coubesse no aviãozinho de papel
pra eu enviar à Lua
meu pensamento.

queria ser um poeta,
desses que já são cometas,
pra eu enviar a Lua
meu poeminha perneta.

queria ser a índia Jaci,
na margem das águas noturnas,
pra me tornar em Lua,
e em forma de flor subsistir.

quisera ser o são Jorge,
belo, valente, sem medo,
pra acabar duma vez com o dragão
e namorar a Lua em segredo!


Rio de Janeiro
22 de novembro de 2006

encontrei um caderninho perdido




que bela surpresa de repente abrir uma caixa e encontrar um caderninho de poemas perdido!

(ou será um caderninho de poemas perdidos?
não sei ao certo, o fato é que encontrei.)

alguns deles, vou publicar aqui.
outros já foram publicados a quem de direito.
óscls

domingo, 12 de abril de 2009

Subindo o Moriá

Myrtes Mathias

Eu queria tanto que quando o amor chegasse

fosse um sentimento lindo
que nos permitisse seguir, sorrindo,
de mãos dadas, em direção do céu.
Sei que foste testemunha, Senhor,
de minha luta contra qualquer sentimento
que viesse me afastar de ti.


No entanto, aconteceu,
e já não é um simples caso de opção:
é uma batalha.


[...] Minha causa entrego aos cuidados teus:
sou frágil demais para decidir
entre o amor de um homem
e a sedução de um Deus.
Tu, que me amaste ao ponto de morrer por mim,
que me elevaste ao ponto de representante Teu;
Tu, para Quem o futuro é um eterno presente,
vê, julga, decide, não me obrigues a escolher.


Um Senhor jamais consulta a vontade de um escravo,
apenas estende a mão e ordena:
Vai — Vem — Faze.


Age comigo assim.
Mas, já que vês o que vai dentro de mim,
se me queres distante daquele que me quer,
por piedade, lembra-Te que sou mulher:
liberta-me, mas de forma que não venha
a sofrer demais.
Não sei como isto pode ser feito,
se ninguém consegue perder uma parte
de si mesmo sem quase enlouquecer de dor.
Por isso apelo ao teu poder, Senhor.
Se o abandono,o meu caminho se cobrirá
de lágrimas e saudade.
Se fujo à Tua ordem e o acompanho,
jamais serei feliz, porque ninguém Te desobedece
sem pagar o preço.
Não apelo à Tua justiça, porque nada mereço:
à Tua misericórdia entrego o meu problema.


"Obedecer é melhor que sacrificar"
é um bonito tema,
mas, quando a obediência envolve um sacrifício,
que é preciso fazer?
Se pudesse unir ao meu amor o Teu querer,
minha paixão ao dever...


Mas se esta não é a Tua vontade,
eis-me aqui a subir o Moriá,
trazendo como lenha os meus sonhos de moça,
como holocausto, o meu pobre amor,
como esperança — "O Senhor proverá."


Cada momento que passa
a escolha se faz mais difícil.
Se tem que haver uma ferida,
que seja feita agora, que sejas Tu o Autor,
porque só Tu tens o poder de fechá-la
com o Teu cuidado, com o Teu amor.


É difícil subir o Getsêmane, para tomar o cálice,
não é fácil subir o monte para sacrificar:
posso sentir agora a profundidade
do "seja feita a tua vontade"
ao depor meu coração em Teu altar.


Aceita-o, Senhor, e faze-me uma bênção,
um caminho para a Tua luz:
que minha dor ajude aos que esperam em mim,
que a renúncia tenha como fim
trazer muitas almas aos Teus pés, Jesus.





terça-feira, 4 de novembro de 2008

perneta

André Coelho

no fundo dos olhos escuros,
no escuro dos fundos olhos,
a retina seca.

lágrimas: um copo cheio,
e um prato de cinzas;
o sono não veio
trazer-me da noite o gosto;
sem lua, sem vento,
coração derradeiro.

e um poema perneta,
que nem meus sonhos...


Rio de Janeiro
16 de julho de 2006

quarta-feira, 19 de março de 2008

esperta

André Coelho
(para Tamara Ângelo)

Uma conta,
uma cor,
uma flor.

Um jasmim,
um jardim...

Cada verso
que tentei,
não coube
o tamanho
da flor,
da conta
que canto.

Por isso,
sem espanto;
pouco pranto,
nem tanto,
deixo beijo,
beija-flor,
à rosa esperta
que um dia me fez assim,
poeta.


Estácio, Rio de Janeiro
26 de outubro de 2005
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