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domingo, 8 de abril de 2012

A Escuridão me Basta


Thomas Merton (1915-1968)

Senhor, é quase meia-noite e estou te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.

Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão,
sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos
para preencher o vazio da noite na qual espero por ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos,
a fim de permanecer na doce escuridão da fé pura.

Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre.
Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo,
estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em tua paz e tua glória.
Tua claridade é minha escuridão.

Eu não conheço nada de ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado. Se te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que te conheço, serei louco.
A escuridão me basta.



sábado, 26 de março de 2011

Visão do horror e visão da esperança: o desastre de Fukushima e as visões de Ezequiel

O mundo foi tomado há exatos 15 dias pela notícia de um forte terremoto seguido de tsunami no nordeste do Japão – talvez o mais terrível terremoto da história desse país.

A polícia japonesa contabilizou até hoje 10.151 mortos e mais de 17.053 desaparecidos como conseqüência do desastre natural que abalou a região e provocou ainda um grave acidente nuclear em um dos reatores nucleares da usina elétrica da província de Fukushima.

Os comentários em relação ao acidente têm sido os mais diversos. Há quem atribua a tragédia a uma reação da natureza à ação devastadora do homem no planeta Terra. Há quem a considere um castigo divino, ou um sinal do fim dos tempos. Há quem a tome como apenas mais um evento da natureza que, infelizmente, atingiu uma usina nuclear.

Leituras e leituras sobre a catástrofe não irão vencer a visão de um homem que está dirigindo o seu carro sobre uma rodovia e se vê repentinamente tomado de todos os lados por um tsunami devastador. Também não darão respostas ao coração da mãe que viu sua casa ruir, seus filhos perderem-se no entulho da onda gigante e que agora está sozinha, sem abrigo e sem família.

A pergunta inevitável que, precoce ou tardia, vem à mente é “Onde estava Deus quando isso aconteceu?”. Será que foi Deus quem moveu a natureza contra o próprio homem, como se fosse um castigo? Ou será que Deus apenas estava de braços cruzados, observando enquanto tudo acontecia, sem tomar atitude alguma? Será que Deus está cego ao sofrimento do homem?

A vida e o ministério do profeta-sacerdote Ezequiel podem-nos ser muito inspirativas nesse sentido. Ezequiel é tido hoje pelos cristãos como um dos maiores profetas da antiguidade e pelos judeus como um dos principais sacerdotes a estabelecer os pilares da religião judaica. De qualquer forma, foi um homem que soube conciliar o ministério profético (oráculos divinos, denúncia de injustiça social, chamada ao arrependimento, etc.) com o ministério sacerdotal (ensino, serviço do templo, separação entre sagrado e profano, etc.).

Mas o que dá a Ezequiel as “credenciais” que o tornam relevante ao falarmos de catástrofes são as visões descritas em seu livro. Sobre as narrativas das visões de Ezequiel paira sempre uma atmosfera de horror sagrado diante do mistério do divino. A visão do vale de ossos secos – que, ao sopro divino, se reanimam, começam a criar juntas e medulas, músculos, carne e voltam à vida, formando um enorme exército – é um bom exemplo.

Ao homem a quem Deus deu visões de horror, certamente também ele deu respostas e palavras de conforto e esperança que vencem o horror, vencem o mistério que é a própria atuação divina e tangem a alma que está estarrecida diante de uma tragédia.

Refletindo sobre as perguntas acima, encontramos algumas respostas no livro de Ezequiel e em outros livros da Bíblia que nos permitem fazer as seguintes afirmações:

1. Deus não utiliza a natureza contra o homem

a) o homem é quem manipula a natureza a seu desfavor: Em primeiro lugar, Deus não utiliza a natureza contra o homem, mas é o próprio homem, a quem Deus imbuiu de um espírito criador, quem manipula e modifica a natureza, às vezes a seu favor, às vezes a seu desfavor;

b) o homem é a coroa da criação, mas também está sujeito à natureza: O livro do Gênesis conta-nos sobre quando Deus criou o mundo. Deus criou o homem e o colocou como coroa sobre toda a criação. Das criaturas de Deus, o homem é a mais complexa, a mais inteligente e a única que Deus criou à imagem e sua semelhança. Porém, ainda que seja a “coroa” da criação de Deus, o homem está sujeito à natureza. O homem não consegue evitar, por exemplo, que o tempo passe – o tempo é definido pela natureza dos astros. O homem também não pode evitar que o outono passe e venha o inverno, muito menos pode evitar o movimento das marés, o ciclo das águas, o dia e a noite. A natureza está em constante movimento, e isso faz parte de sua saúde; não é uma catástrofe. O homem precisa admitir que também está sujeito a esse movimento da natureza em torno de si.

c) Deus tem um pacto de vida com homem, de não destruí-lo por meio das águas: Vamos mais uma vez ao Gênesis. A Bíblia conta que, certa vez, Deus olhou para a humanidade, viu a sua maldade e resolveu destruir todos os homens, preservando a vida de apenas uma família, a de um homem chamado Noé, que sobreviveu porque construíra um barco, conforme a ordem de Deus. Ao final dessa narrativa, Deus coloca no céu o arco-íris e faz um pacto com Noé, de que nunca mais irá destruir a humanidade por meio das águas. Por esse motivo, não devemos pensar que um desastre como a morte de milhares de pessoas por um tsunami tenha sido causado por Deus.

2. Deus não está de braços cruzados

a) a natureza anuncia a cada dia o mover das mãos do Senhor: O Salmo 19 nos diz que o céu anuncia a obra das mãos de Deus, e que um dia fala sobre isso ao outro dia, assim como uma noite fala à noite seguinte. Isso é uma metáfora poética para nos afirmar que a criação é a primeira revelação de que Deus existe e de que ele não está de braços cruzados – pois dá a cada dia ao homem o calor do sol e o descanso da noite. Deus está, portanto, em constante movimento para abençoar o homem. Deus não está, de forma alguma, sentado em uma poltrona, como se fosse um espectador numa platéia-de-uma-pessoa-só, assistindo ao espetáculo da vida humana (tragédia ou comédia grega?), comendo pipoca e tomando guaraná.

b) o tempo de Deus não é o nosso tempo: O apóstolo Pedro (2Pe 3.8) afirma que, para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Nós, seres humanos, estamos limitados, “presos” à contagem de dias do planeta Terra. Mais uma vez, Deus não vê passar o mundo como passa uma escola de samba que atravessa a avenida Marquês de Sapucaí e tem um tempo cronometrado para cumprir seu papel. Deus vê todos os tempos: começo, meio e fim. E novo começo. E Deus já preparou aquilo que ainda há de vir.

c) Deus pede que o homem tenha atitude: Deus deseja que o homem movimente-se no sentido de aproximar-se dele. É necessária uma constante renovação interior: é preciso um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 18.31).

3. Deus não está cego

a) Deus vê o nosso sofrimento: Já que estamos falando em sofrimento, que tal falarmos em pecado? Sim, o pecado também leva ao sofrimento, a um sentimento enorme de culpa e a um distanciamento de Deus. Deus vê o nosso pecado? Sim, com certeza, e disso não temos dúvida. O próprio Espírito nos testifica de que, quando pecamos, estamos em um caminho errado e que Deus tem conhecimento disso. Da mesma forma que Deus vê o nosso pecado, ele vê o nosso sofrimento.

b) Deus não tem prazer no nosso sofrimento: A Bíblia afirma em Ezequiel 18.32 que Deus não sente prazer com a morte de ninguém, portanto Deus não tem prazer no nosso sofrimento, assim como não teve prazer na morte daqueles quase 11 mil homens no Japão.

c) O homem tem responsabilidade pelo seu pecado: Embora um terremoto seguido de tsunami seja uma ocorrência comum na natureza e provavelmente não esteja relacionada à ação do homem ou de Deus, não podemos fechar os olhos ao fato de que, com o nosso pecado, “cavamos a nossa própria cova”, como dizia um professor meu na faculdade de Arquitetura. Quando pecamos, ofendemos a Deus. Mas, muito mais do que isso, o pecado nos coloca distantes dele. Quando pecamos contra o nosso próximo, o pecado nos distancia do próximo.

E quanto à natureza? Existe pecado contra a natureza, contra a criação? Certamente, quando pecamos contra o planeta terra, nos distanciamos da natureza e de seu Criador, e apressamos mais um pouquinho o dia da nossa morte, ou talvez da morte de alguém próximo a nós. É necessário que cada um assuma a responsabilidade que tem sobre seu próprio pecado (Ez 18.1-4).


Uma visão da esperança

Na visão do vale de ossos secos narrada por Ezequiel, aquilo que era horror se converte em vida. Deus não deseja que a humanidade torne-se e permaneça como um monturo de ossos ressequidos e sem vida alguma. Deus não deseja que o homem permaneça afastado dele (que é a morte espiritual).

O profeta Ezequiel, em seu livro, anuncia pela primeira vez um Messias que será um “pastor” (Ez 34.23; 37.24), em vez de um “rei”. Anuncia que a glória de Deus voltará a preencher o seu santo Templo (Ez 43) e que o próprio Deus dará ao homem novo coração e novo espírito (Ez 11.19; 36.26). Deus estabelecerá uma nova aliança, mas não para recompensar o povo por sua “volta” para ele, e sim por pura benevolência e graça (16.62-63).

O Deus que Ezequiel anuncia é um Deus que concede perdão ao homem em graça. É um Deus que abomina o mal e o pecado, mas um pastor que cuida do seu rebanho como quem cuida de ovelhas que não sabem por onde devem andar. Um Deus que constrói um Templo novo, estabelece uma nova aliança, dá novo coração e novo espírito.

O Apocalipse de João nos fala nesse mesmo Deus, que um dia irá criar novo céu, nova terra. Um Deus que, em pessoa, enxugará dos olhos dos homens toda lágrima. E não haverá mais morte, nem choro, nem clamor, nem dor. Porque Deus fará novas TODAS as coisas (Ap 21.1-7).

Se no tempo presente não temos respostas, se a morte de mais de 10 mil pessoas em um único dia por conta de um desastre natural nos assusta, devemos descansar a nossa alma em Deus, sabendo que estamos ainda no tempo das “primeiras coisas” (Ap. 21.4), que um dia irão passar. Devemos permanecer seguros de que, em Cristo, a morte será apenas a separação do nosso corpo, pois na eternidade iremos habitar com ele.
Encerro com uma poesia, que é uma música, de Vital Lima, chamada “Sobreviventes”:



As cidades sabem
que as explosões
podem destruir as casas,
soterrar os sentimentos,
nossas canções.

Mas as cidades também sabem
que um coração,
um coração teimoso
reconstruirá escombros
e as nossas canções.

E que há de florescer outra realidade
a plantar-se entre os amantes
e sobreviventes.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Salmo Brasileiro

André de Barros Coelho

Das profundezas clamo a ti, Senhor.
Meu coração está coberto de nuvens negras,
como as planícies da Amazônia.
Meus olhos escondem tantas lágrimas
que os mais profundos rios não poderiam imaginar.
Minha garganta está mais seca que o chão dos sertões.
E eu nem mesmo sei explicar o que se passa comigo.

Só tu, Senhor, conheces meu coração,
pois da argila o fizeste,
antes que ele pulsasse pela primeira vez.
E agora por que não me respondes?

Chora, minha alma, e espera pelo Senhor.
Pois sabes que ele um dia vem
inundar toda esta terra seca e morta dentro de ti.
Clama, das tuas profundezas, e ele te ouvirá.

Porque só ele é a tua força.

Estácio, Rio de Janeiro, RJ
8 de janeiro de 2011


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Incêndio: a parte que não sai no jornal


"Depois de medicada, retirou-se pro seu lar
– aí a notícia carece de exatidão.
O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou.

[...] Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal,
a dor da gente não sai no jornal."
(Chico Buarque - Notícia de Jornal)

Esta manhã, meus irmãos e eu fomos poupados de uma tragédia.

Ao chegar no prédio, à hora do almoço, vi pessoas entrando e saindo, um alvoroço diferente do comum. Os elevadores estavam desligados, havia sujeira, água e cheiro de fumaça pra todo lado.

– Foi o incêndio! – logo alguém me disse.

Que sensação estranha! Subir as escadas sem saber exatamente o que houve. Encontrar o corredor do apartamento cheio d'água. E, em seguida, saber que o fogo foi perto do nosso apartamento...

Fui até o 5º andar, onde o fogo começou. Na sala do apartamento, um sofá chamuscado e algumas cadeiras que restaram. Uma estante com algumas coisas recolhidas. Os quartos e banheiro, reduzidos a pó e cinzas, ainda ferviam de calor.

Em pouco tempo, fiquei sabendo como acontecera: o casal estava dormindo, pela manhã, quando percebeu algo estranho. Os dois se levantaram e foram até o quarto de hóspedes. Ao abrirem a porta, viram a cama já em chamas. Foi o tempo exato de saírem de casa e o fogo entrou no quarto deles – um pouco mais, e não teriam conseguido sair.

Trouxeram a mangueira de incêndio e conseguiram pelo menos molhar alguns móveis na sala, que não foram atingidos pelo fogo. Em pouco tempo, chegaram os bombeiros e conseguiram evitar que algo pior acontecesse.

Algo pior?

Sentada numa das cadeiras, olhando as cinzas a que se reduzira a sua casa, a moradora falou:

– Por quê? Por quê? Tanta gente ruim neste mundo, fazendo coisas erradas, tanto político roubando dinheiro do povo... e a gente aqui, ajudando as pessoas, tem que passar por isso...

A fumaça e o calor mataram o passarinho, que seria solto ainda esta semana. O fogo pegou alguns dólares, que estavam guardados. As chamas lamberam cabelos, lanharam carne, devassaram alguns sonhos.

Diante de uma tragédia, não há explicação, não há conforto, não há sossego para a alma.

Sim, poderia ter sido pior. O fogo poderia ter tomado todo o prédio. Poderia ter destruído outros apartamentos. Alguém poderia ter morrido.

Mas penso que não se mede o sofrimento dos outros. A dor dói, e pronto.

Um livreto repousava sobre o sofá, cheio de fuligem:

– É o livro de sabedoria. – disse a moradora – O fogo não pegou ele.

Uma vizinha abriu em uma página aleatória, que dizia: "Como viver eternamente." Algo sobre observar o dia de hoje, aprender com suas lições e ajudar as pessoas que estiverem por perto.

Nada tão aleatório poderia ter sido mais próprio. Como disse um sábio, melhor é ir a uma casa onde há luto do que a uma casa onde há festa, porque a morte faz as pessoas pensarem na vida. (Eclesiastes 7.2)

Terá sido o acaso? Existe o acaso?

Quando a vida é a única coisa que resta, não adianta chorar.

Quando falta o braço, a mão amiga não tem preço.

Quando Deus é o único horizonte, erguer os olhos e dar o próximo passo é sinal de esperança e de vida.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

poema da volta

André Coelho




Cada dia...
um gigante...

Cada passo...
tão difícil
e tão longo!

Você não imagina o quanto já andaram estes pés;
não imagina o tamanho dos passos;
não sabe a distância entre Rio e Belém;
nem conhece, dos calcanhares, os laços.

Os dias me tiram as forças;
porém madrugadas, como esta,
fazem-me férteis o coração e os poros.

Um coração grita na noite:
– Queeeeeem?...
Quem nos ouvirá as mágoas?
Quem nos salvará das águas?
Quem terá a chave que abre todo sentimento?
(Céu na Boca)
Outro coração, do alto, grita:
– Aquiiiiiiii!... –,
enquanto grossas gotas de sangue escorrem escuras nas areias
[ quentes do deserto.

Curva-se um par de joelhos,
enquanto repousam os pés,
e a voz, do alto, indaga:
– Quem és?

– Sou eu, teu filho...
   já não lembras de mim?
   Decerto andei disperso,
   não telefonei, não escrevi...
   mas uma coisa peço:
   deixas que volte-me a ti?

A voz sorri,
desce,
calça as havaianas,
abre a porta
e, sorrindo, diz:
– Claro que deixo, filho...
   Não cochilei enquanto não chegaste.
   Eis ali tua cama quentinha, roupas limpas,
   e teu cachorro no quintal.

É triste a partida
sem a volta;
viagem só de ida.

Para quem nunca partiu,
dói menos...
mas não há nada igual
a pisar o chão de casa
e perceber, num sorriso,
que as raízes ainda estão lá,
fincadas,
nutridas,
profundas,
entrelaçadas,
robustas,
doídas
e fortalecidas.


Rio de Janeiro
17 de dezembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Retrato

Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

domingo, 12 de abril de 2009

semeio (ainda que)

André Coelho

ainda que seque a flor,
semeio.

por toda a terra sem água,
tanta febre quanta for,
ou pura tristeza e mágoa.

ainda que à própria vida,
já por inteiro esgotada
de toda vida quanto há,
falte um sorriso, que falte lar,
ou falte o leite no seio,
ainda que tudo vá.
que tudo vá.

semeio.


Lança o teu pão sobre as águas,
porque depois de muitos dias o acharás.
Reparte com sete, e ainda até com oito,
porque não sabes que mal haverá sobre a terra.
(Coélet, Eclesiastes 11.1-2)


postado em http://papaxibe.flogbrasil.terra.com.br/
30 de julho de 2006 -
Rio de Janeiro, RJ

domingo, 28 de dezembro de 2008

Via Dutra #1 :: Bandeira

Que importa a jaqueta, a calça de moleton, as meias, a manta?
— O que respiro é o frio.


Rodovia Presidente Dutra (Sampa-Rio)
3 de agosto de 2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

perneta

André Coelho

no fundo dos olhos escuros,
no escuro dos fundos olhos,
a retina seca.

lágrimas: um copo cheio,
e um prato de cinzas;
o sono não veio
trazer-me da noite o gosto;
sem lua, sem vento,
coração derradeiro.

e um poema perneta,
que nem meus sonhos...


Rio de Janeiro
16 de julho de 2006

domingo, 31 de agosto de 2008

Abroad

André Coelho


Quanto tempo, Pai?
O que me afasta destas letras?
Que me afasta... de ti?

Como se eu não soubesse.

Rs...
...como se não me conhecesses.

Deus, somente Deus
os seus mistérios pode revelar.
Os seus desígnios, quem jamais
um dia conheceu?
Pois Deus, somente, é Deus!



*São Bernardo do Campo - SP, in Sarau da Comuna

sábado, 8 de março de 2008

tabatinga

André Coelho

uma mulher quebrou-me em pedaços;
os homens pisaram;
e virei farelo piracuí.

o vento – aquele
que não se sabe de onde vem
nem para onde vai,
mas se ouve a sua voz –
bateu forte
e misturou meu pó na terra,
de onde vim.

choveu
e fui parar no igarapé
com pitiú de cobra.

mas um homem,
aliás, o filho do homem,
achou-me ali,
suja tabatinga
com restos de folhas
e ferpas de madeira.

e agora me olha enternecido,
como a cadela à sua cria,
e (meu Deus!) limpa-me
e pergunta se quero ser vaso.
e pergunta se quero ser vaso.
e pergunta se quero ser.
e pergunta se quero.
e pergunta.

quanto tempo suportarei em silêncio?


Rio de Janeiro, RJ
2006


GLOSSÁRIO

piracuí: farinha de peixe – o peixe é salgado e seco ao sol, e depois apiloado; o processo é muito comum nas populações e cidades do baixo rio Amazonas; o peixe comumente usado é o Acari, mas também pode-se fazer com carne de jacaré.

igarapé: pequeno rio amazônico; não confundir com riacho.

pitiú: cheiro forte, impregnante, normalmente de peixe. a expressão é indígena e muito usada entre os nortistas, podendo referir-se também ao cheiro de cobra, ovo cru, e odores do gênero.

tabatinga: uma espécie de argila branca, encontrada em muitos igarapés.
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