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terça-feira, 4 de novembro de 2008

curiosamente atacama

André Coelho
(às vítimas do terremoto no Chile em junho de 2005)

curió pousou na minha janela
pra conversar sobre outras terras
onde só se chega com asas.
curioso, um curió!

não sei bem como,
nem em que momento da nossa conversa,
ele me seqüestrou.
e, engraçado, não me senti seqüestrado,
afinal ele me mostrou as flores
(as muitas e coloridas flores)
que nascem quando chove no Atacama,
lá onde a terra tremeu outro dia.
junto às flores vi o coração do menino,
que, mesmo pequenino,
é maior e mais sabido que o da gente,
que se diz gente grande.

o curió me perguntou o que eu achava daquelas terras
mas eu não consegui falar, pois estava chorando.
acho que naquela hora fiquei meio menino,
fiquei meio curió.

curiosamente aprendi a voar.
qualquer dia posso te levar.
pois as pessoas de lá ainda precisam de flores,
já que perderam suas casas
e choram, não de asas,
mas de chão.



postado em http://papaxibe.flogbrasil.terra.com.br/
26 de junho de 2005 - Rio de Janeiro, RJ

domingo, 10 de fevereiro de 2008

de estranheza e dulçor

André Coelho
(em memória a Elza Nilander)

Vida, estranha vida:
incerta;
simples;
e linda.

Curta, como um sopro.
Larga como um rio.
Profunda como os olhos de uma criança.

E doce.
Doce.


Estácio, Rio de Janeiro.
10 de fevereiro de 2007.

domingo, 25 de novembro de 2007

os perigos desta vida

André Coelho

(em memória ao Daniel Moutinho)
(e dedicado à tia Lucinha Chaves)


sim, são demais..
velho poeta de morais!

trocaria de lugar com os que foram
(eu não tenho problema com isso),
na hora que for, vou.

faria tão menos falta que eles.

mas não são assim as regras do jogo.
ontem foram eles. que foram.
amanhã seremos nós.
um, depois o outro.

e a vida vai prosseguir, normal e tranquila,
como todo poema triste
que se faz belo.
e uma hora acaba.


25 de Novembro de 2007
Rio de Janeiro - RJ

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

são Teus pés

André Coelho

são Teus pés a que me curvo,
mesmo mais torto meu caminho,
mesmo o dia mais turvo.

quando me aperta o espinho,
quando de noites me cubro,
quando sozinho,

são Teus pés a que me rendo,
pois os meus já não me ajudam,
e enfim paro, vejo, entendo
que, quando pensamentos me acusam,

são Teus pés que me sustentam
sem mais culpa, mentira, remendo;
feridos e descalços, porém firmes,
são Teus pés.


Julia Seffer - Belém, PA
28 de Dezembro de 2005

*dedicado em 28.12.06 à memória de Samuel de Andrade Barros






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