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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Corridinho

Adélia Prado

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

A vida dos 15 aos 30

Quando se é adolescente, a vida parece uma grande questão que precisa ser resolvida com urgência. Os amigos, momentos, nada se pode perder.

Perto dos 30 anos, a gente começa a descobrir que a vida não é urgente. É um futuro que a gente constrói a cada amigo ou momento de hoje.

Aos 30 anos, viver é uma arte. O vigor da juventude e a responsabilidade das escolhas. Uma boa estrada já trilhada, e outra longa a trilhar.

Bobagem querer parecer a idade que não se tem, querer ser o que não se é. Chega um dia em que a gente descobre que não pode fugir do óbvio.

Como disse Carlos Drummond de Andrade:
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

A todos um ótimo dia.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

13º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens


13º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens - www.fnlij.org.br

Centro de Convenções Sul América
Av Paulo de Frontin, 1 – Centro, Rio de Janeiro, RJ

Metrô:
Estação Estácio – Linha 1
Estação Cidade Nova – Linha 2

Estacionamento no local
Ingresso - R$4

terça-feira, 19 de abril de 2011

Canção dos Trinta

Eis um dia novo
que irrompe entre os casarões
e os jardins fechados
de uma rua antiga.

Eis semitons sutis
de trinta (e um) abris,
pastéis-cor-de-giz
sobre o velho quadro-negro.

E tu, que me abris
o portão enferrujado,
não notas que cresce ao lado
aquela horta de alecrim,
manjericão e anis?

Observa seu olor,
seu sabor, sua prumada;
e retoma a caminhada.

Eis que vem, vem bem perto,
uma chuva no deserto
dessa cidade em chamas,
após outro longo verão.

Eis um monte.
Uma cruz avermelhada.
Olhares descrentes;
medrosos; ausentes.
Cabeça curvada.
Um grito.
E o nada.

Eis o dia do silêncio.
O dia da saudade.
Dia do pensar
e dia do pesar.

Eis um dia novo
que irrompe por entre as frestas
e a pedra lavrada
de uma tumba antiga.

Eis um portão aberto,
uma pedra removida,
a janela escancarada.

Eis um hoje e amanhã da caminhada.

Eis uma criança que volta a sorrir,
a sanfona que volta a chorar,
boa erva que torna a brotar,
uma casa que torna a se abrir.

Eis um filho,
trinta passos dados,
velho caminho, onde muitos antes.
Muitos antes andaram,
mas caminho novo, dia novo
como é novo todo dia.

Eis um menino,
um papel e uma caneta.
Trinta anos, trinta abris
e mais um poema perneta.

--
Rio de Janeiro
19 de abril de 2011


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Os 30 do André

Isabel Rocha

Que bela idade para se ter.
Boa idade é aquele que vivemos no momento que a temos.
Mas trinta é trinta.
Abandonamos as bobagens, enfim, da juventude e nos preparamos para a maturidade.
O que não se resolveu, resolverá por si mesmo.
As opções estão concluídas, somos o que somos e ponto.
Nada mais de velhos dilemas.
Nada mais de bagagem inúteis.
A casa está concluída. Sólida ou não.
Somos muito jovens ainda para viver plenamente.
Corpo e a alma unidos enfim
(depois se separam de novo, mais por causa do corpo que não vai acompanhar a alma).

A lentidão do tempo da infância e juventude não existe mais.
O tempo urge e começa a dar avisos.
Os anos voam e escoam por entre nossos dedos.
Num piscar de olhos chegam os quarentas e INTAS nunca mais.
Só ENTAS, cinquentas, sessentas, oitentas.....

Então aproveite cada minuto.
Se realize e se deixe realizar.

Não sei se dará para ir...
afinal o corpo aqui não acompanha mais os desejos da alma
e a alma já não consegue ter tantos desejos assim
me refiro ao doutorado que consome o pouco que sobra de energia do corpo e da alma.

MUITOS BEIJOS no meu eterno Garoto!
Da moça, não tão eterna
Isabel


Ao Sambaqui, eterna gratidão pela amizade e inspiração.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Salmo Brasileiro

André de Barros Coelho

Das profundezas clamo a ti, Senhor.
Meu coração está coberto de nuvens negras,
como as planícies da Amazônia.
Meus olhos escondem tantas lágrimas
que os mais profundos rios não poderiam imaginar.
Minha garganta está mais seca que o chão dos sertões.
E eu nem mesmo sei explicar o que se passa comigo.

Só tu, Senhor, conheces meu coração,
pois da argila o fizeste,
antes que ele pulsasse pela primeira vez.
E agora por que não me respondes?

Chora, minha alma, e espera pelo Senhor.
Pois sabes que ele um dia vem
inundar toda esta terra seca e morta dentro de ti.
Clama, das tuas profundezas, e ele te ouvirá.

Porque só ele é a tua força.

Estácio, Rio de Janeiro, RJ
8 de janeiro de 2011


domingo, 12 de abril de 2009

Subindo o Moriá

Myrtes Mathias

Eu queria tanto que quando o amor chegasse

fosse um sentimento lindo
que nos permitisse seguir, sorrindo,
de mãos dadas, em direção do céu.
Sei que foste testemunha, Senhor,
de minha luta contra qualquer sentimento
que viesse me afastar de ti.


No entanto, aconteceu,
e já não é um simples caso de opção:
é uma batalha.


[...] Minha causa entrego aos cuidados teus:
sou frágil demais para decidir
entre o amor de um homem
e a sedução de um Deus.
Tu, que me amaste ao ponto de morrer por mim,
que me elevaste ao ponto de representante Teu;
Tu, para Quem o futuro é um eterno presente,
vê, julga, decide, não me obrigues a escolher.


Um Senhor jamais consulta a vontade de um escravo,
apenas estende a mão e ordena:
Vai — Vem — Faze.


Age comigo assim.
Mas, já que vês o que vai dentro de mim,
se me queres distante daquele que me quer,
por piedade, lembra-Te que sou mulher:
liberta-me, mas de forma que não venha
a sofrer demais.
Não sei como isto pode ser feito,
se ninguém consegue perder uma parte
de si mesmo sem quase enlouquecer de dor.
Por isso apelo ao teu poder, Senhor.
Se o abandono,o meu caminho se cobrirá
de lágrimas e saudade.
Se fujo à Tua ordem e o acompanho,
jamais serei feliz, porque ninguém Te desobedece
sem pagar o preço.
Não apelo à Tua justiça, porque nada mereço:
à Tua misericórdia entrego o meu problema.


"Obedecer é melhor que sacrificar"
é um bonito tema,
mas, quando a obediência envolve um sacrifício,
que é preciso fazer?
Se pudesse unir ao meu amor o Teu querer,
minha paixão ao dever...


Mas se esta não é a Tua vontade,
eis-me aqui a subir o Moriá,
trazendo como lenha os meus sonhos de moça,
como holocausto, o meu pobre amor,
como esperança — "O Senhor proverá."


Cada momento que passa
a escolha se faz mais difícil.
Se tem que haver uma ferida,
que seja feita agora, que sejas Tu o Autor,
porque só Tu tens o poder de fechá-la
com o Teu cuidado, com o Teu amor.


É difícil subir o Getsêmane, para tomar o cálice,
não é fácil subir o monte para sacrificar:
posso sentir agora a profundidade
do "seja feita a tua vontade"
ao depor meu coração em Teu altar.


Aceita-o, Senhor, e faze-me uma bênção,
um caminho para a Tua luz:
que minha dor ajude aos que esperam em mim,
que a renúncia tenha como fim
trazer muitas almas aos Teus pés, Jesus.





quarta-feira, 19 de março de 2008

esperta

André Coelho
(para Tamara Ângelo)

Uma conta,
uma cor,
uma flor.

Um jasmim,
um jardim...

Cada verso
que tentei,
não coube
o tamanho
da flor,
da conta
que canto.

Por isso,
sem espanto;
pouco pranto,
nem tanto,
deixo beijo,
beija-flor,
à rosa esperta
que um dia me fez assim,
poeta.


Estácio, Rio de Janeiro
26 de outubro de 2005

sábado, 8 de março de 2008

tabatinga

André Coelho

uma mulher quebrou-me em pedaços;
os homens pisaram;
e virei farelo piracuí.

o vento – aquele
que não se sabe de onde vem
nem para onde vai,
mas se ouve a sua voz –
bateu forte
e misturou meu pó na terra,
de onde vim.

choveu
e fui parar no igarapé
com pitiú de cobra.

mas um homem,
aliás, o filho do homem,
achou-me ali,
suja tabatinga
com restos de folhas
e ferpas de madeira.

e agora me olha enternecido,
como a cadela à sua cria,
e (meu Deus!) limpa-me
e pergunta se quero ser vaso.
e pergunta se quero ser vaso.
e pergunta se quero ser.
e pergunta se quero.
e pergunta.

quanto tempo suportarei em silêncio?


Rio de Janeiro, RJ
2006


GLOSSÁRIO

piracuí: farinha de peixe – o peixe é salgado e seco ao sol, e depois apiloado; o processo é muito comum nas populações e cidades do baixo rio Amazonas; o peixe comumente usado é o Acari, mas também pode-se fazer com carne de jacaré.

igarapé: pequeno rio amazônico; não confundir com riacho.

pitiú: cheiro forte, impregnante, normalmente de peixe. a expressão é indígena e muito usada entre os nortistas, podendo referir-se também ao cheiro de cobra, ovo cru, e odores do gênero.

tabatinga: uma espécie de argila branca, encontrada em muitos igarapés.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

há um Deus em tua vida

Myrtes Mathias


Quando te vejo tão acomodado ao mundo que te cerca,
como a água tomando a forma do vaso que a contém,
eu me lembro de um Rei coroado de espinhos,
arrastando uma cruz pelos caminhos,
pelas ruas de Jerusalém.

Quanto te vejo tão preocupado com rótulos e comodidades,
tão desejoso de aparecer,
eu me lembro de um jovem-Deus perdido no deserto,
onde só feras e anjos O podiam ver.

Um jovem-Deus que te entregou um dia
o privilégio da grande Comissão,
o Qual negas com tua covardia,
sucumbindo a promessas
que te falam à carne e ao coração.

Quando te vejo tão ocupado em construir celeiros,
ajuntando fortunas que o ladrão pode roubar,
em me lembro de um Deus caído sob tuas culpas
sem o conforto de uma pedra para repousar.

Quando te vejo conivente com aquilo que Ele aborrece,
ao ponto de ocultar a Herança que Ele te legou,
pergunto: Seria falsa a promessa que fizeste
ou o amor que tu Lhe tinhas era pouco
e se acabou?

Onde está teu grito de protesto, que já não escuto?
Tua atitude de inconformação?
Será que te esqueceste do santo compromisso
ou te parece pouco o privilégio da tua missão?

Por que tremes diante do mundo,
temendo por valores que só servem aqui?
Será que Cristo te escolheu em vão
ou será que já não existe um Deus dentro de ti?

Tu estás no mundo, mas não és do mundo.
Não escolheste – foste escolhido.
Por que te encolhes ao ponto
de seres grande pelo padrão dos homens,
comprometendo tua autoridade
de condenar um mundo corrompido?

Foste escolhido para uma missão tão grande
que nem a anjos foi dada a executar:
não te assustem ameaças,
não te seduzam promessas,
numa obra eterna, é melhor morrer do que negar.

Lembra-te que há um Deus em tua vida
que os teus atos devem glorificar.

MATHIAS, Myrtes. Há um Deus em Tua Vida. In: MATHIAS, Myrtes. Há um Deus em Tua Vida. 3. ed. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1986.
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