Caros teólogos, pastores, professores e missionários,
Acredito que só vamos aprender a falar do evangelho à alma do brasileiro quando conhecermos a "nossa" cultura (do nosso povo). E não se conhece cultura sem conhecer a música, a produção literária, as comidas, as lendas, os mitos, os medos, as histórias. A gente não precisa ter medo da nossa cultura. Ela pode ser estranha. Mas é estranha pra nós, criados em outra cultura, evangélica-norte-americana.
Ainda precisamos ir muito aos sertões das secas e das águas do Brasil, ouvir o carimbó e as toadas de boi amazônicos, o baião e os xotes do nordeste, os violeiros caipiras do jequitinhonha, do Pantanal, das terras altas da caatinga baiana... coisas que o Brasil mal conhece, regiões de produção cultural fenomenal... e que muito menos o Brasil evangélico conhece, pois geralmente não olha pra dentro do Brasil, e sim para fora.
Além disso, a gente mora dentro de uma cidade que "se basta". Rio de Janeiro, umbigo do Brasil. Sinceramente... a gente tá aqui dentro e não faz a menor ideia do que seja o Brasil. Pra quem não pretende sair deste mundo aqui, pra que conhecer mais do que isto? Beleza. Pra quem tem planos de ir morar fora do Brasil, posso concordar que o processo de inculturação deva acontecer de outra forma. Então pra que conhecer o Brasil de verdade, não é mesmo? Rs.
Mas pra quem pretende se dizer brasileiro, samba é só o começo da caminhada, galera...
Graças a Deus, depois que vim morar no Rio, aprendi a gostar de samba. E vou confessar que eu não sabia apreciar a beleza negra, porque em Belém a maioria da população é de brancos, pardos, índios e japoneses [sic]. Ainda bem que meus conceitos mudaram e hoje eu namoro uma mulata linda que Deus me deu... ô bênça! Como disseram Martinho da Vila e Zeca Baleiro: "Salve a mulatada brasileira! Salve! Salve!"
Recomendo 3 músicas brasileiras – de verdade rs – compostas por cristãos evangélicos, um deles judeu. Um baião, um carimbó e um canto "sertanez". Desejo que elas os inspirem, como inspiram a mim sempre que ouço. Se quiserem, podem ouvir e acompanhar as letras nos links:
Antes que Seque a Flor
Céu na Boca (Brasília, DF) - baião (inspirado em Eclesiastes 11-12)
Esta Cidade
Arlindo Lima e Tallita Barros (Tucuruí, PA e Belém, PA) - carimbó (inspirado no texto do profeta Sofonias)
Campo Branco
Elomar Figueira de Mello (Vitória da Conquista, BA)
Um forte abraço.
André Coelho
os montes, ah! os montes... / contam histórias tão distantes / de açaizeiros, igarapés, / dos tempos de antes, / lembranças, sussurros e saudades / aos montes. (Minas Gerais, rodovia Rio-Brasília, 20 de dezembro de 2005)
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terça-feira, 7 de junho de 2011
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Incêndio: a parte que não sai no jornal

"Depois de medicada, retirou-se pro seu lar
– aí a notícia carece de exatidão.
O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou.
[...] Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal,
a dor da gente não sai no jornal."
(Chico Buarque - Notícia de Jornal)
Esta manhã, meus irmãos e eu fomos poupados de uma tragédia.
Ao chegar no prédio, à hora do almoço, vi pessoas entrando e saindo, um alvoroço diferente do comum. Os elevadores estavam desligados, havia sujeira, água e cheiro de fumaça pra todo lado.
– Foi o incêndio! – logo alguém me disse.
Que sensação estranha! Subir as escadas sem saber exatamente o que houve. Encontrar o corredor do apartamento cheio d'água. E, em seguida, saber que o fogo foi perto do nosso apartamento...
Fui até o 5º andar, onde o fogo começou. Na sala do apartamento, um sofá chamuscado e algumas cadeiras que restaram. Uma estante com algumas coisas recolhidas. Os quartos e banheiro, reduzidos a pó e cinzas, ainda ferviam de calor.
Em pouco tempo, fiquei sabendo como acontecera: o casal estava dormindo, pela manhã, quando percebeu algo estranho. Os dois se levantaram e foram até o quarto de hóspedes. Ao abrirem a porta, viram a cama já em chamas. Foi o tempo exato de saírem de casa e o fogo entrou no quarto deles – um pouco mais, e não teriam conseguido sair.
Trouxeram a mangueira de incêndio e conseguiram pelo menos molhar alguns móveis na sala, que não foram atingidos pelo fogo. Em pouco tempo, chegaram os bombeiros e conseguiram evitar que algo pior acontecesse.
Algo pior?
Sentada numa das cadeiras, olhando as cinzas a que se reduzira a sua casa, a moradora falou:
– Por quê? Por quê? Tanta gente ruim neste mundo, fazendo coisas erradas, tanto político roubando dinheiro do povo... e a gente aqui, ajudando as pessoas, tem que passar por isso...
A fumaça e o calor mataram o passarinho, que seria solto ainda esta semana. O fogo pegou alguns dólares, que estavam guardados. As chamas lamberam cabelos, lanharam carne, devassaram alguns sonhos.
Diante de uma tragédia, não há explicação, não há conforto, não há sossego para a alma.
Sim, poderia ter sido pior. O fogo poderia ter tomado todo o prédio. Poderia ter destruído outros apartamentos. Alguém poderia ter morrido.
Mas penso que não se mede o sofrimento dos outros. A dor dói, e pronto.
Um livreto repousava sobre o sofá, cheio de fuligem:
– É o livro de sabedoria. – disse a moradora – O fogo não pegou ele.
Uma vizinha abriu em uma página aleatória, que dizia: "Como viver eternamente." Algo sobre observar o dia de hoje, aprender com suas lições e ajudar as pessoas que estiverem por perto.
Nada tão aleatório poderia ter sido mais próprio. Como disse um sábio, melhor é ir a uma casa onde há luto do que a uma casa onde há festa, porque a morte faz as pessoas pensarem na vida. (Eclesiastes 7.2)
Terá sido o acaso? Existe o acaso?
Quando a vida é a única coisa que resta, não adianta chorar.
Quando falta o braço, a mão amiga não tem preço.
Quando Deus é o único horizonte, erguer os olhos e dar o próximo passo é sinal de esperança e de vida.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Te Vejo, Belém
André Coelho
Deste meu rio de nuvens que me trazem do Rio de Janeiro,
avisto agora uma bruta floresta,
um rio monumental.
Minha alma canta,
como Jobim!
bebo Waldemar!
Eis que vejo meu rio de concreto e de mangueiras...
Ah! Belém!
Quanto tempo desta vez?
Tenho sonhado com teu céu,
tuas nuvens,
teus igarapés...
teu chão.
Chão que agora me recebe
no coração da floresta
de pau e pedra;
um ribeirinho da cidade.
Chão que me conhece,
que tem meu cheiro,
meu peso,
minha religião,
minha alma.
Te vejo, Belém,
da janela deste avião
e não consigo conter uma lágrima teimosa.
(pausa para uma outra lágrima).
Estou louco para suar de novo nas tuas manhãs,
para tirar a minha sesta na tua tarde,
pra sentir a brisa de água-doce da tua noite.
Vem cá, Belém,
dá cá um abraço...
Cheguei!
7 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Solo de um ribeirinho: a mesma periferia (impressões sobre o filme 5x Favela)
Diante da realidade exposta pelo diretores Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra no filme 5x Favela – agora por nós mesmos, vem a mim uma série de perguntas iniciais: Qual é o Brasil? O que os brasileiros entendem por Brasil e brasilidade? Qual a identidade do brasileiro? O que faz do Brasil Brasil, em qualquer lugar do Brasil?
O filme tem um ar ao mesmo tempo côntico – dadas as narrativas, que lembram alguns contos de Carlos Drummond de Andrade e Lígia Fagundes Telles – e profundamente realista, numa descrição minuciosa da vida nas favelas cariocas, a qual chega a ser ainda mais verossímil do que nas produções Tropa de Elite (José Padilha, 2007) e Cidade dos Homens (Rede Globo, série, 2002-2005).
O quinto episódio do filme, Acende a Luz, dirigido por Luciana Bezerra, foi para mim o mais marcante, não pelo enredo, mas pela simbologia da idéia central, das cenas e dos argumentos.
É véspera de Natal e os moradores do morro estão sem luz. Os técnicos da companhia de energia elétrica não deram conta de restabelecer o funcionamento de um equipamento e, num esforço para tentar garantir que o serviço seja concluído antes do anoitecer, os moradores “seqüestram” um dos técnicos.
Mas a estratégia não surte o resultado desejado e, depois de muita insistência, tudo o que o técnico consegue é fazer a luz funcionar em apenas um poste em todo o morro. E é exatamente sob a luz deste único poste que a vizinhança vem comemorar o seu Natal.
A cegueira que se impõe pela falta da luz. A esperança e a espera pelo seu brilho. Uma luz dada aos homens na noite de Natal. A festa que a todos congrega. O encontro dos diferentes sob a luz.
São todos certamente temas muito interessantes para uma reflexão sobre o episódio e sua relação com o próprio sentido do Natal de Jesus.
Mas outro detalhe me vem.
Na trilha sonora de Acende a Luz, a primeira música executada chama-se Solo do Ribeirinho. Ao contrário do que a própria proposta inicial do filme possa sugerir, a música não é um funk carioca, mas uma guitarrada, ritmo tipicamente paraense, filho “pobre” das antigas guitarradas portuguesas, irmão do carimbó, e parente não muito distante do merengue caribenho, do brega paraense e da jovem guarda – referências comumente citadas pelos tradicionais mestres da guitarrada, como Aldo Sena, Curica e Vieira, ou pelos apreciadores do ritmo.
E surge uma nova questão: o que um ritmo tradicional muito pouco conhecido, que não é nacionalmente popular como a Banda Calypso, executado por mestres tocadores de viola do interior do Pará, tem a ver com a favela carioca?
E surge uma nova questão: o que um ritmo tradicional muito pouco conhecido, que não é nacionalmente popular como a Banda Calypso, executado por mestres tocadores de viola do interior do Pará, tem a ver com a favela carioca?
Um caminho de resposta está em olhar para a periferia. O que nos dizem os moradores da favela da maré? O que nos dizem os ribeirinhos do rio Tapajós? Quais as cores e as dores dos sertanejos do Caicó e dos pescadores de Paraty? Que anseios trazem no coração os guarani do Rio Grande do Sul e os negros do Silêncio do Matá, no coração da Amazônia, próximo a Óbidos?
No princípio de 2008, acompanhei a notícia dos suicídios frequentes em tribos indígenas do Mato Grosso do Sul: em apenas um mês, mais de dez jovens se suicidaram. Um deles, que havia se enforcado, pendia em uma corda amarrada a um galho de árvore e trazia sob os pés, no chão, a inscrição: “Eu não tenho lugar”.
O anseio é um só, o grito é um só. É o grito da periferia pelo espaço, pela liberdade, pelo respeito. É um anseio, um profundo anseio, por dias melhores. Por um dia em que a luz brilhe tanto, que não mais sejam necessárias a luz do sol, da lua ou dos bulbos das lâmpadas incandescentes.
Concluo este artigo com um poema que é uma letra de música. Na verdade, um lundu¹.
O poema fala de sede, de água e de uma vida que corre como um rio.
Para o coração dilacerado e ressecado pela pobreza e pelo desrespeito, há uma água tão pura que nem existe no mundo, mas que pode ser experimentada no coração de quem tem a Jesus.
É setembro, mês em que voltam as chuvas no Brasil. Esperança de fim das queimadas que assolam o país. Esperança de boa safra no próximo verão. Esperança de libertação para os pés que foram colocados de escanteio. Esperança de salvação para o coração do homem.
Alto Mar
Arlindo Lima
Começa o dia de novo,
o sol ainda finge de morto.
Minha vida é esse rio,
represa de desafio,
que o vento filtra os brios,
pois é necessário regar.
Vamos molhar,
água levar...
“A água da vida eu cedo”.
A sede afoga o moleque
e, quanto mais cedo ela cede,
mais cedo na pesca ele investe.
A profundeza estremece,
pois vamos ganhar alto mar.
Vamos pescar,
água levar...
Mas temo a maré quando baixa,
pois nem chuva forte lhe basta.
Eu me distancio da margem,
o barro é a minha imagem.
Então busco a fonte, verdade,
pra água da vida tomar
Vou me molhar,
água tomar...
Ouvir "Mestres da Guitarrada - Solo do Ribeirinho"
Ouvir "Arlindo Lima - Alto Mar"
NOTAS
1. Lundu: dança ritmada por tambores, parte do folclore nortista paraense registrado por Mário de Andrade em suas viagens pelo Brasil nas primeiras décadas do século XX e ainda hoje muito apreciada nas rodas de danças folclóricas em Belém.
FONTES
5x Favela: agora por nós mesmos. Disponível em: www.5xfavela.com.br, acesso em 02 de setembro de 2010.
sábado, 24 de abril de 2010
Antiga ocorrência policial
André Coelho
Bem ali,
na Rua da Cadeia,
um alemão matou uma gorda senhora que tocava violão
Bem ali,
na Rua da Cadeia,
um alemão matou uma gorda senhora que tocava violão
na mesma calçada em que um indiozinho todos os dias vem vender seus cordões de contas coloridas.
Ninguém sabe,
ninguém viu.
Ninguém supõe.
Ninguém supõe.
Mas tenho impressão de que, neste lugar, as paredes falam.
Paraty, RJ
24 de abril de 2010
De volutas e beirais
André Coelho
Uma ruela
que se perde em outra ruela,
que se perde em outra ruela,
que vai dar no mar.
Uma igrejinha de uma torre só,
uma outra sem torres,
um Caminho do Ouro sem ouro.
Uma ruela
que se perde em outra ruela,
que se perde em outra ruela,
que vai dar no mar.
Uma igrejinha de uma torre só,
uma outra sem torres,
um Caminho do Ouro sem ouro.
Aquilo que fez a vida um dia parar
hoje é motivo de vida.
E a mesma vida segue,
volutosa,
barroca,
simples,
antiga...
correndo parada.
"Como se não existisse chegada
na tarde distante,
ferrugem
ou nada."
(Djavan - A Rota do Indivíduo)
Paraty, RJ
24 de abril de 2010
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
poema da volta
André Coelho
Cada dia...
um gigante...
Cada passo...
tão difícil
e tão longo!
Você não imagina o quanto já andaram estes pés;
não imagina o tamanho dos passos;
não sabe a distância entre Rio e Belém;
nem conhece, dos calcanhares, os laços.
Os dias me tiram as forças;
porém madrugadas, como esta,
fazem-me férteis o coração e os poros.
Um coração grita na noite:
– Queeeeeem?...
– Aquiiiiiiii!... –,
enquanto grossas gotas de sangue escorrem escuras nas areias
Curva-se um par de joelhos,
enquanto repousam os pés,
e a voz, do alto, indaga:
– Quem és?
– Sou eu, teu filho...
já não lembras de mim?
Decerto andei disperso,
não telefonei, não escrevi...
mas uma coisa peço:
deixas que volte-me a ti?
A voz sorri,
desce,
calça as havaianas,
abre a porta
e, sorrindo, diz:
– Claro que deixo, filho...
Não cochilei enquanto não chegaste.
Eis ali tua cama quentinha, roupas limpas,
e teu cachorro no quintal.
É triste a partida
sem a volta;
viagem só de ida.
Para quem nunca partiu,
dói menos...
mas não há nada igual
a pisar o chão de casa
e perceber, num sorriso,
que as raízes ainda estão lá,
fincadas,
nutridas,
profundas,
entrelaçadas,
robustas,
doídas
e fortalecidas.
Rio de Janeiro
17 de dezembro de 2009
um gigante...
Cada passo...
tão difícil
e tão longo!
Você não imagina o quanto já andaram estes pés;
não imagina o tamanho dos passos;
não sabe a distância entre Rio e Belém;
nem conhece, dos calcanhares, os laços.
Os dias me tiram as forças;
porém madrugadas, como esta,
fazem-me férteis o coração e os poros.
Um coração grita na noite:
– Queeeeeem?...
Quem nos ouvirá as mágoas?
Quem nos salvará das águas?
Quem terá a chave que abre todo sentimento?
(Céu na Boca)
Outro coração, do alto, grita:– Aquiiiiiiii!... –,
enquanto grossas gotas de sangue escorrem escuras nas areias
[ quentes do deserto.
Curva-se um par de joelhos,
enquanto repousam os pés,
e a voz, do alto, indaga:
– Quem és?
– Sou eu, teu filho...
já não lembras de mim?
Decerto andei disperso,
não telefonei, não escrevi...
mas uma coisa peço:
deixas que volte-me a ti?
A voz sorri,
desce,
calça as havaianas,
abre a porta
e, sorrindo, diz:
– Claro que deixo, filho...
Não cochilei enquanto não chegaste.
Eis ali tua cama quentinha, roupas limpas,
e teu cachorro no quintal.
É triste a partida
sem a volta;
viagem só de ida.
Para quem nunca partiu,
dói menos...
mas não há nada igual
a pisar o chão de casa
e perceber, num sorriso,
que as raízes ainda estão lá,
fincadas,
nutridas,
profundas,
entrelaçadas,
robustas,
doídas
e fortalecidas.
Rio de Janeiro
17 de dezembro de 2009
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Oi Noites Cariocas
André Coelho
Chuva me endoida:
fecho os olhos apertado;
estou em Belém!
E consigo enganar-me
por alguns minutinhos
até que o funk recomeça
no bar em frente ao prédio
e digo, estarrecido:
"Oi, noites cariocas!"
Estácio, Rio de Janeiro
28 de janeiro de 2007
Chuva me endoida:
fecho os olhos apertado;
estou em Belém!
E consigo enganar-me
por alguns minutinhos
até que o funk recomeça
no bar em frente ao prédio
e digo, estarrecido:
"Oi, noites cariocas!"
Estácio, Rio de Janeiro
28 de janeiro de 2007
quarta-feira, 4 de março de 2009
Artigos para importação...
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Ritmo de Festa
A saudade é um dos temas recorrentes em mim. Assim como o o são o longe, o perto, o que se deseja, as decepções, as razões, a chuva, o êxtase, a alegria, a verdade, as decisões, et. al.
Isso me faz lembrar uma aula de Língua Portuguesa, que tive há não muito tempo aqui no Rio de Janeiro. O professor escolhia aleatoriamente um tema e cada aluno ia à frente da turma discursar durante 5 minutos sobre o tema escolhido.
Quando chegou a minha vez, já ao fim da aula, não havia mais temas na lista do professor. Ele iria me pedir para falar em "luto", mas, depois que alguém o lembrou de que esse tema já havia sido usado, ele modificou para "festa".
Sempre acho mais difícil falar sobre a alegria, porque é um sentimento óbvio. Quem está alegre faz festa. Porém quem está triste pensa, reflete. Já disse há muito tempo o pensador do livro de Eclesiastes que "Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração." (cf v. 7.2)
Fiquei de pé, dirigi-me à frente da turma, e pensei durante alguns segundos. À minha mente não vinham danças, nem comemorações, nem banquetes, nem festas de aniversário. Mas me veio a lembrança da chuva que cai nas tardes quentes de Belém do Pará.
Penso que a saudade é aquilo que faz cantar a alma. É aquilo que coloca a alma (e não o corpo) em festa. Acho muito curioso, por exemplo, a maneira como o carioca, em geral, não gosta de chuva. Costumo dizer que os cariocas, quando chove, ficam deprimidos. De fato, eles não saem de casa, ou saem por obrigação e passam o dia resmungando e dizendo que preferem o sol.
É claro. O sol, para o carioca, é festa. A cidade do Rio de Janeiro, nos dias ensolarados, fica mais bela, mais aproveitável, mais visível (e a cidade do Rio é uma cidade que precisa ser vista de longe). Sem falar nas praias. O sol coloca a alma do carioca em festa. Em contrapartida, a chuva é como se trouxesse o luto.
Nos primeiros anos morando no Rio, eu não conseguia entender isso. Para mim, um paraense de Belém, chuva é essência, lembrança e vida. Em geral, para o papa-chibé (belenense), a chuva coloca a alma em festa.
Existem poucas coisas boas como tomar banho de chuva numa tarde quente, de pés descalços. Ou então sentar-se do lado de dentro da casa e ver a chuva, ora pingando, ora jorrando pelos telhados e condutores. Ou então observar as nuvens negras cobrindo o céu no meio do dia, parando o vento, fazendo as luzes da cidade se acenderem, e derramando-se minutos depois em deliciosas chuvas torrenciais.
Poucas coisas são tão boas quanto, depois de uma forte chuva equatorial, assistir o céu se abrindo e o sol brilhando novamente. Só sabe quem já viu.
A saudade para mim não é luto. Saudade é trazer para perto o que não mais está perto. Saudade é presença, é certeza. Saudade é festa.
Isso me faz lembrar uma aula de Língua Portuguesa, que tive há não muito tempo aqui no Rio de Janeiro. O professor escolhia aleatoriamente um tema e cada aluno ia à frente da turma discursar durante 5 minutos sobre o tema escolhido.
Quando chegou a minha vez, já ao fim da aula, não havia mais temas na lista do professor. Ele iria me pedir para falar em "luto", mas, depois que alguém o lembrou de que esse tema já havia sido usado, ele modificou para "festa".
Sempre acho mais difícil falar sobre a alegria, porque é um sentimento óbvio. Quem está alegre faz festa. Porém quem está triste pensa, reflete. Já disse há muito tempo o pensador do livro de Eclesiastes que "Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração." (cf v. 7.2)
Fiquei de pé, dirigi-me à frente da turma, e pensei durante alguns segundos. À minha mente não vinham danças, nem comemorações, nem banquetes, nem festas de aniversário. Mas me veio a lembrança da chuva que cai nas tardes quentes de Belém do Pará.
Penso que a saudade é aquilo que faz cantar a alma. É aquilo que coloca a alma (e não o corpo) em festa. Acho muito curioso, por exemplo, a maneira como o carioca, em geral, não gosta de chuva. Costumo dizer que os cariocas, quando chove, ficam deprimidos. De fato, eles não saem de casa, ou saem por obrigação e passam o dia resmungando e dizendo que preferem o sol.
É claro. O sol, para o carioca, é festa. A cidade do Rio de Janeiro, nos dias ensolarados, fica mais bela, mais aproveitável, mais visível (e a cidade do Rio é uma cidade que precisa ser vista de longe). Sem falar nas praias. O sol coloca a alma do carioca em festa. Em contrapartida, a chuva é como se trouxesse o luto.
Nos primeiros anos morando no Rio, eu não conseguia entender isso. Para mim, um paraense de Belém, chuva é essência, lembrança e vida. Em geral, para o papa-chibé (belenense), a chuva coloca a alma em festa.
Existem poucas coisas boas como tomar banho de chuva numa tarde quente, de pés descalços. Ou então sentar-se do lado de dentro da casa e ver a chuva, ora pingando, ora jorrando pelos telhados e condutores. Ou então observar as nuvens negras cobrindo o céu no meio do dia, parando o vento, fazendo as luzes da cidade se acenderem, e derramando-se minutos depois em deliciosas chuvas torrenciais.
Poucas coisas são tão boas quanto, depois de uma forte chuva equatorial, assistir o céu se abrindo e o sol brilhando novamente. Só sabe quem já viu.
A saudade para mim não é luto. Saudade é trazer para perto o que não mais está perto. Saudade é presença, é certeza. Saudade é festa.
domingo, 28 de dezembro de 2008
Via Dutra #1 :: Bandeira
Que importa a jaqueta, a calça de moleton, as meias, a manta?
— O que respiro é o frio.
Rodovia Presidente Dutra (Sampa-Rio)
3 de agosto de 2008
— O que respiro é o frio.
Rodovia Presidente Dutra (Sampa-Rio)
3 de agosto de 2008
terça-feira, 4 de março de 2008
triste humor profético
André Coelho
Sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
Mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
Não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
Assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
Ai, Deus, que dor no peito é esta?
Não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
Mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
Escrito em 27 de fevereiro de 2006, a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais depois de meu primeiro retorno a Belém.
Postado hoje, quando estou a 1 dia de completar 3 anos de chegada ao Rio.
Sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
Mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
Não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
Assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
Ai, Deus, que dor no peito é esta?
Não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
Mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
Escrito em 27 de fevereiro de 2006, a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais depois de meu primeiro retorno a Belém.
Postado hoje, quando estou a 1 dia de completar 3 anos de chegada ao Rio.
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
na cidade
André Coelho
hoje almocei com gal.
depois de conversarmos um bocado,
gal falou-me, em tom de confidência:
- só louco amou como eu amei,
só louco quis o bem que eu quis...
e eu respondi:
- baby, baby, eu sei que é assim.
foi quando chegou o zeca, com um violão:
- ando tão à flor da pele
que qualquer beijo de novela me faz chorar...
e aquele almoço não foi mais o mesmo.
strogonoff de carne a la mole.
piccolo, pra ser mais específico.
e todas aquelas canções...
tantas canções...
e a vida.
hoje almocei com gal.
depois de conversarmos um bocado,
gal falou-me, em tom de confidência:
- só louco amou como eu amei,
só louco quis o bem que eu quis...
e eu respondi:
- baby, baby, eu sei que é assim.
foi quando chegou o zeca, com um violão:
- ando tão à flor da pele
que qualquer beijo de novela me faz chorar...
e aquele almoço não foi mais o mesmo.
strogonoff de carne a la mole.
piccolo, pra ser mais específico.
e todas aquelas canções...
tantas canções...
e a vida.
terça-feira, 24 de abril de 2007
triste humor profético
André Coelho
sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
ai, Deus, que dor no peito é esta?
não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais
27 de fevereiro de 2006
sim, confesso saudades do Rio
e das praias sem fim
de Tom Jobim.
mas tenho cravados cá em mim
outros céus,
cheios de nuvens,
cheios de suor e chuva.
não sei quanto tempo sobrevivo desta vez
às loucas estações do tempo carioca
(quase me fizeram trocar de pele ano passado);
a cidade enorme e insólita
me causa assombro
e me torna ríspido.
assombrado fico também
ao de repente me ver sem Belém.
ai, Deus, que dor no peito é esta?
não quero ser estrangeiro
e não vou ser.
(pausa)
mas quando, enfim, vier o que é frio,
então o mundo vai olhar para a linha do Equador.
a bordo da Gol, sobrevoando Minas Gerais
27 de fevereiro de 2006
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
enquanto alguém semeia...
André Coelho
vozes gaiatas e boêmias na madrugada.
um tiro.
outro tiro.
e o silêncio.
e o Rio de Janeiro continua lindo...
Estácio - Rio de Janeiro, RJ
08 de setembro de 2005
vozes gaiatas e boêmias na madrugada.
um tiro.
outro tiro.
e o silêncio.
e o Rio de Janeiro continua lindo...
Estácio - Rio de Janeiro, RJ
08 de setembro de 2005
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