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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Solo de um ribeirinho: a mesma periferia (impressões sobre o filme 5x Favela)

Diante da realidade exposta pelo diretores Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra no filme 5x Favela – agora por nós mesmos, vem a mim uma série de perguntas iniciais: Qual é o Brasil? O que os brasileiros entendem por Brasil e brasilidade? Qual a identidade do brasileiro? O que faz do Brasil Brasil, em qualquer lugar do Brasil?

O filme tem um ar ao mesmo tempo côntico – dadas as narrativas, que lembram alguns contos de Carlos Drummond de Andrade e Lígia Fagundes Telles – e profundamente realista, numa descrição minuciosa da vida nas favelas cariocas, a qual chega a ser ainda mais verossímil do que nas produções Tropa de Elite (José Padilha, 2007) e Cidade dos Homens (Rede Globo, série, 2002-2005).


O quinto episódio do filme, Acende a Luz, dirigido por Luciana Bezerra, foi para mim o mais marcante, não pelo enredo, mas pela simbologia da idéia central, das cenas e dos argumentos.

É véspera de Natal e os moradores do morro estão sem luz. Os técnicos da companhia de energia elétrica não deram conta de restabelecer o funcionamento de um equipamento e, num esforço para tentar garantir que o serviço seja concluído antes do anoitecer, os moradores “seqüestram” um dos técnicos.

Mas a estratégia não surte o resultado desejado e, depois de muita insistência, tudo o que o técnico consegue é fazer a luz funcionar em apenas um poste em todo o morro. E é exatamente sob a luz deste único poste que a vizinhança vem comemorar o seu Natal.

A cegueira que se impõe pela falta da luz. A esperança e a espera pelo seu brilho. Uma luz dada aos homens na noite de Natal. A festa que a todos congrega. O encontro dos diferentes sob a luz.

São todos certamente temas muito interessantes para uma reflexão sobre o episódio e sua relação com o próprio sentido do Natal de Jesus.

Mas outro detalhe me vem.

Na trilha sonora de Acende a Luz, a primeira música executada chama-se Solo do Ribeirinho. Ao contrário do que a própria proposta inicial do filme possa sugerir, a música não é um funk carioca, mas uma guitarrada, ritmo tipicamente paraense, filho “pobre” das antigas guitarradas portuguesas, irmão do carimbó, e parente não muito distante do merengue caribenho, do brega paraense e da jovem guarda – referências comumente citadas pelos tradicionais mestres da guitarrada, como Aldo Sena, Curica e Vieira, ou pelos apreciadores do ritmo.

E surge uma nova questão: o que um ritmo tradicional muito pouco conhecido, que não é nacionalmente popular como a Banda Calypso, executado por mestres tocadores de viola do interior do Pará, tem a ver com a favela carioca?

Um caminho de resposta está em olhar para a periferia. O que nos dizem os moradores da favela da maré? O que nos dizem os ribeirinhos do rio Tapajós? Quais as cores e as dores dos sertanejos do Caicó e dos pescadores de Paraty? Que anseios trazem no coração os guarani do Rio Grande do Sul e os negros do Silêncio do Matá, no coração da Amazônia, próximo a Óbidos?

No princípio de 2008, acompanhei a notícia dos suicídios frequentes em tribos indígenas do Mato Grosso do Sul: em apenas um mês, mais de dez jovens se suicidaram. Um deles, que havia se enforcado, pendia em uma corda amarrada a um galho de árvore e trazia sob os pés, no chão, a inscrição: “Eu não tenho lugar”.

O anseio é um só, o grito é um só. É o grito da periferia pelo espaço, pela liberdade, pelo respeito. É um anseio, um profundo anseio, por dias melhores. Por um dia em que a luz brilhe tanto, que não mais sejam necessárias a luz do sol, da lua ou dos bulbos das lâmpadas incandescentes.

Concluo este artigo com um poema que é uma letra de música. Na verdade, um lundu¹.

O poema fala de sede, de água e de uma vida que corre como um rio.

Para o coração dilacerado e ressecado pela pobreza e pelo desrespeito, há uma água tão pura que nem existe no mundo, mas que pode ser experimentada no coração de quem tem a Jesus.

É setembro, mês em que voltam as chuvas no Brasil. Esperança de fim das queimadas que assolam o país. Esperança de boa safra no próximo verão. Esperança de libertação para os pés que foram colocados de escanteio. Esperança de salvação para o coração do homem.


Alto Mar
Arlindo Lima

Começa o dia de novo,
o sol ainda finge de morto.
Minha vida é esse rio,
represa de desafio,
que o vento filtra os brios,
pois é necessário regar.

Vamos molhar,
água levar...

“A água da vida eu cedo”.
A sede afoga o moleque
e, quanto mais cedo ela cede,
mais cedo na pesca ele investe.
A profundeza estremece,
pois vamos ganhar alto mar.

Vamos pescar,
água levar...

Mas temo a maré quando baixa,
pois nem chuva forte lhe basta.
Eu me distancio da margem,
o barro é a minha imagem.
Então busco a fonte, verdade,
pra água da vida tomar

Vou me molhar,
água tomar...


Ouvir "Mestres da Guitarrada - Solo do Ribeirinho"


Ouvir "Arlindo Lima - Alto Mar"



NOTAS
1. Lundu: dança ritmada por tambores, parte do folclore nortista paraense registrado por Mário de Andrade em suas viagens pelo Brasil nas primeiras décadas do século XX e ainda hoje muito apreciada nas rodas de danças folclóricas em Belém.


FONTES
5x Favela: agora por nós mesmos. Disponível em: www.5xfavela.com.br, acesso em 02 de setembro de 2010.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Comentário à 'Carta aberta ao blog "Um que Tenha" (e à mídia brasileira)'

André Coelho

(conferir postagem anterior: Cristofobia - vejam que situação!)



Essa é uma questão que já tá rolando há algum tempo, e que começa a se configurar em um fenômeno social seríssimo de discriminação e quase intolerância religiosa. E olha que, hoje, no Brasil, intolerância religiosa já é crime.

Não podemos admitir isso. Não é porque sejamos cristãos, pacificadores em nossa maioria, que tenhamos que aceitar calados essa separação que a mídia tem ensinado a sociedade a fazer, de que os cristãos (evangélicos) são pobres, burros e sem cultura.

As mulheres, os gays, os negros, os índios, todos têm conquistado seu espaço. Está na hora dos cristãos, com sabedoria, reinvidicarem os mesmo direitos, já que estamos numa república livre e pretensamente igualitária, ou que busque a igualdade.

Além disso, está na hora dos cristãos caírem em si e pararem de viver como se fossem guetos. Isso não é saudável, não é cristão, não é bíblico. Como bem citado aí em cima, a maré gospel brasileira de hoje vai completamente de encontro (contra) aos ensinamentos jesuanos de sermos "sal da terra e luz do mundo".

Só seremos a luz do mundo se estivermos no mundo. Só seremos sal da terra se permanecermos no mesmo "planeta" dos demais humanos. Foi por isso que Jesus não pediu a Deus que nos tirasse do mundo, porém que nos livrasse do mal.

É hora de parar, refletir, unir as forças e o pensamento para "brigarmos" por nosso espaço dentro da república brasileira. Precisamos espalhar esta idéia. Passar adiante situações como a vivida agora pelo Sérgio e pela Marivone. Levar essa discussão para nossas igrejas, para os grupos de estudo da Bíblia, salas de aula, universidades, consultórios, para as ruas, elevadores e para dentro de nossas casas.

Que Deus nos abençoe a todos com inquietação, discernimento, coragem, muita graça e muita paz.

Cristofobia: vejam que situação!

André Coelho


Sérgio e Marivone, do grupo Baixo e Voz, foram sutilmente "barrados no baile", ao tentar divulgar seu trabalho em um blog que distribui música brasileira em meio digital.

O blog é muito conhecido, acessado, e se chama Um que Tenha.
(clique aqui para acessar o blog).

Por causa disso, Sérgio e Marivone, que são cristãos evangélicos e são excelentes músicos, escreveram ao blog Um que Tenha e à mídia brasileira uma carta aberta, que está sendo comentada e apoiada por alguns dos nossos principais músicos da MPB Cristã. A carta foi publicada no site Cristianismo Criativo.
(clique aqui para ler a carta).

Acontecimentos como este estão provando o quão discriminadora ainda é a nossa sociedade. Não é à toa que, nas últimas décadas, as mulheres, os negros, os indígenas, os gays e outros grupos sociais têm "brigado" por seu espaço na nação brasileira.

Será que chegou a nossa hora de lutar pela mesma causa?
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