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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

para Ceumar Coelho
para Macapá

Cá, no meio do mundo,
a vida corre mansa,
como beira de rio.

Cá, no meio do mundo,
os homens dão bom-dia,
as mulheres dão sorriso.

Cá, no meio do mundo,
há um cais, uma praça, uma fortaleza,
onde a vida se faz de adeuses e olás.

Cá, no meio do mundo,
o dia é mais quente,
o vento, mais forte,
os rios, mais largos,
as noites, mais calmas,
as amizades, mais profundas.

Cá, no meio do mundo,
onde não há começo nem fim,
a vida, a gente inventa.
O dia, a gente faz.

E o rio, a gente admira...
admira...
admira...

---
André Coelho
Macapá, 24 de outubro de 2013




quinta-feira, 18 de julho de 2013

[DES]ENCONTRO

para Davi e Daniel Coelho

Que dos adeuses
restem apenas os olás
e da saudade
os abraços trocados.
Que tornem-se braços dados
os acenos
e sejam plenos
e sagrados:
palavra, dor e sentimento
que se haja trocado.

Que a tristeza do afastar-se
sirva apenas para lembrar
que houve o encontro
e que a saudade
se torne, não choro,
mas um trazer para perto
o que se foi.

Que amigos sejam irmãos.
Que irmãos sejam um só.
Para que não haja desencontro.

---
André Coelho
Macapá, 15 de julho de 2013




sexta-feira, 10 de junho de 2011

13º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens


13º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens - www.fnlij.org.br

Centro de Convenções Sul América
Av Paulo de Frontin, 1 – Centro, Rio de Janeiro, RJ

Metrô:
Estação Estácio – Linha 1
Estação Cidade Nova – Linha 2

Estacionamento no local
Ingresso - R$4

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobre missão, música e brasilidades - carta aos meus colegas do STBSB

Caros teólogos, pastores, professores e missionários,

Acredito que só vamos aprender a falar do evangelho à alma do brasileiro quando conhecermos a "nossa" cultura (do nosso povo). E não se conhece cultura sem conhecer a música, a produção literária, as comidas, as lendas, os mitos, os medos, as histórias. A gente não precisa ter medo da nossa cultura. Ela pode ser estranha. Mas é estranha pra nós, criados em outra cultura, evangélica-norte-americana.

Ainda precisamos ir muito aos sertões das secas e das águas do Brasil, ouvir o carimbó e as toadas de boi amazônicos, o baião e os xotes do nordeste, os violeiros caipiras do jequitinhonha, do Pantanal, das terras altas da caatinga baiana... coisas que o Brasil mal conhece, regiões de produção cultural fenomenal... e que muito menos o Brasil evangélico conhece, pois geralmente não olha pra dentro do Brasil, e sim para fora.

Além disso, a gente mora dentro de uma cidade que "se basta". Rio de Janeiro, umbigo do Brasil. Sinceramente... a gente tá aqui dentro e não faz a menor ideia do que seja o Brasil. Pra quem não pretende sair deste mundo aqui, pra que conhecer mais do que isto? Beleza. Pra quem tem planos de ir morar fora do Brasil, posso concordar que o processo de inculturação deva acontecer de outra forma. Então pra que conhecer o Brasil de verdade, não é mesmo? Rs.

Mas pra quem pretende se dizer brasileiro, samba é só o começo da caminhada, galera...

Graças a Deus, depois que vim morar no Rio, aprendi a gostar de samba. E vou confessar que eu não sabia apreciar a beleza negra, porque em Belém a maioria da população é de brancos, pardos, índios e japoneses [sic]. Ainda bem que meus conceitos mudaram e hoje eu namoro uma mulata linda que Deus me deu... ô bênça! Como disseram Martinho da Vila e Zeca Baleiro: "Salve a mulatada brasileira! Salve! Salve!"

Recomendo 3 músicas brasileiras – de verdade rs – compostas por cristãos evangélicos, um deles judeu. Um baião, um carimbó e um canto "sertanez". Desejo que elas os inspirem, como inspiram a mim sempre que ouço. Se quiserem, podem ouvir e acompanhar as letras nos links:

Antes que Seque a Flor
Céu na Boca (Brasília, DF) - baião (inspirado em Eclesiastes 11-12)

Esta Cidade
Arlindo Lima e Tallita Barros (Tucuruí, PA e Belém, PA) - carimbó (inspirado no texto do profeta Sofonias)

Campo Branco
Elomar Figueira de Mello (Vitória da Conquista, BA)

Um forte abraço.
André Coelho

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O corpo: local de adoração, graça e saúde*

André de Barros Coelho

Que os cuidados com o corpo são um ensinamento bíblico desde o Antigo Testamento, disso não há dúvidas. Vale sempre lembrar as diversas leis instituídas sobre a qualidade dos alimentos, o cuidado e asseio diante de diversas doenças, os cuidados com a casa e outros diversos preceitos (conferir Levítico 11-15; Deuteronômio 12.15-32, 14.3-21, 22.13-23.14), muitos dos quais são seguidos até hoje por diversos grupos religiosos.

Também não é novidade que o nosso corpo é templo do Espírito Santo. O Novo Testamento afirma que o Espírito de Deus habita em nós, e que cada um de nós é templo (1Coríntios 3.16, 6.19), o que significa, entre outras coisas, que nossa vida e nosso corpo são um local de adoração a Deus, lugar de sacrifício e de graça.

OS HOMENS MORREM MAIS DO QUE AS MULHERES  Desde que o Governo Federal começou a veicular a campanha da Política Nacional de Saúde do Homem, há quem se pergunte: – Pra quê tanto alarde? Até que ponto isso tudo é necessário?

É o próprio Ministério da Saúde quem se adianta e responde. No Brasil, a cada três mortes de pessoas adultas, duas são de homens (57,8%). Entre os jovens com 20 a 30 anos de idade, o número de homens sobe para quatro a cada cinco mortes. Além disso, os homens vivem em média sete anos a menos que as mulheres.

A taxa de mortalidade por câncer (especialmente de pele e de próstata) entre a população do sexo masculino cresceu quase 200% entre 1980 e 2005. Além do câncer, entre as principais causas de morte em 2005, estão as doenças isquêmicas do coração (entre elas o infarto do miocárdio), doenças cerebrovasculares, homicídios, suicídios e quedas acidentais.

Mesmo que não sejam surpresa, esses não são os únicos números que fazem soar o alarme de cuidado!... Dentre as causas de internação de homens de 15 a 59 anos nas unidades do SUS em todo o Brasil no ano de 2006, estão em primeiro lugar as diferentes manifestações de violência (mais de 800 mil casos) e os transtornos mentais e comportamentais (quase 370 mil casos).

O HOMEM BRASILEIRO CUIDA POUCO DE SI MESMO – Os números da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU-SP) mostram que 50% dos homens vai ao médico por pressão da esposa ou namorada. O preconceito (quando o homem se acha invulnerável a doenças) e o medo (quando ele receia receber uma má notícia, por exemplo) estão entre os fatores que reduzem a ida dos homens ao médico em relação às mulheres. “(...) os homens, por uma série de questões culturais e educacionais, só procuram o serviço de saúde quando perderam sua capacidade de trabalho.”, afirma José Gomes Temporão, ministro da Saúde.

As pesquisas do Ministério da Saúde revelam ainda que, na hora de fazer o planejamento familiar, o peso continua a recair sobre as mulheres. Entre 2007 e 2008, o número de mulheres que se submeteu a cirurgias de esterilização foi o dobro do número de homens.

Para completar, o sedentarismo, um dos grandes fatores de risco para doenças crônicas, alcança hoje 26,3% da população brasileira (29,5% entre os homens). Na terceira idade, o número ultrapassa os 50%.

Na opinião do secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Alberto Beltrame, os homens brasileiros “foram educados para não chorar e manter a couraça de que são ‘machos’. Também alegam que são os provedores e têm medo de que se descubram doenças, mas hoje as mulheres são tão provedoras quanto eles”.

O HOMEM É PROVEDOR – Ainda que o homem não seja mais a única âncora financeira nas famílias brasileiras, especialmente nos grandes centros urbanos, dividindo esse posto com as mulheres, é um princípio bíblico que o homem seja, da casa, o provedor de amor.

Segundo o conselho de Paulo às comunidades cristãs de Éfeso e Colossos (Efésios 5.25,28; Colossenses 3.19,21), o homem deve amar a sua mulher e não se irritar com ela. Não apenas isso, precisa amá-la como ama ao seu próprio corpo. Mais ainda, o pai não deve irritar a seus filhos.

Cuidar para que a esposa e os filhos tenham saúde física e emocional é um papel do homem. O amor que um homem fornece à sua esposa vai ser percebido pelos filhos na maneira como a mãe cuida deles. O amor que um pai fornece aos seus filhos vai torná-los mais seguros de que são amados e de que estão protegidos. Da mesma forma, o amor que o homem fornece à sua esposa e filhos, bem como o amor que um jovem fornece a seus pais e irmãos, pode reverter-se em amor e cuidado também deles sobre a sua própria vida.

O fato de que, nos dias de hoje, a mulher cada vez mais participa das finanças do lar (inclusive como provedora de sustento), deve também abrir espaço para que o homem cuide de si mesmo de forma mais equilibrada – seja exercitando o corpo, seja valorizando o tempo de repouso, seja cuidando de sua mente e suas emoções.

O REPOUSO E O LAZER NA BÍBLIA – É comum que o muito trabalho torne-se, na vida do homem, uma espécie de areia movediça. O autor de Eclesiastes afirma que, após considerar todo o trabalho que ele, com fadiga, havia feito, percebeu que tudo era vazio de sentido, como se ele estivesse correndo atrás do vento (Eclesiastes 2.11). Quanto mais trabalha, e quanto mais espaço conquista, mais espaço o homem quer, de forma que o equilíbrio entre o sustento familiar e o repouso necessário – duas necessidades – às vezes foge ao controle do próprio homem.

No Israel antigo, havia um princípio: separar um dia por semana para o descanso. Certamente todos sabemos que, segundo o relato bíblico, quando Deus criou o mundo, o fez em seis dias e descansou no sétimo (Gênesis 2.2-3). O Pentateuco, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, traz-nos diversas posturas quanto ao repouso do corpo (Êxodo 35.1-3), assim como quanto ao repouso da terra em que se cultivem animais e plantas (Levítico 25.1-17).

De acordo com essas posturas, o homem deveria trabalhar seis dias e descansar no sétimo, santificando esse dia ao Senhor. Também deveria o homem, após trabalhar durante seis anos, separar o sétimo ano para o descanso solene da terra. Tudo isso nos mostra que, para o povo judeu, o descanso era sagrado.
Também o livro de Eclesiastes nos traz conselhos muito especiais. Na compreensão do sábio, autor do livro, é um dom de Deus que o ser humano possa comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho. Afinal, alegrar-se em suas próprias obras é a recompensa que o homem tem pelo seu próprio trabalho, dado por Deus (Eclesiastes 3.9-15,22).

O equilíbrio na vida é valorizado tanto pelo sábio, que propõe a moderação em tudo (Eclesiastes 7.15-22), quanto pelo apóstolo Paulo, que propõe a paciência, a mansidão e o domínio próprio como fruto do Espírito Santo, que habita no crente (Gálatas 5.22-23).

Dar ao corpo o tempo de descanso de que ele necessita e dar à mente o lazer que também lhe é necessário devem ser imperativos do homem, especialmente o homem cristão. Na conclusão de seu livro, o sábio de Eclesiastes afirma que Deus pedirá contas a cada homem pela maneira como tiver aproveitado a sua juventude (Eclesiastes 11.9-10).

Os números do Ministério da Saúde mostram que a taxa de suicídios entre os homens brasileiros cresceu, nos últimos 30 anos, aproximadamente 40% e que quase 370 mil homens foram internados em 2006 por transtornos mentais e comportamentais, o que indica que o homem brasileiro não está doente apenas fisicamente, mas também emocionalmente.

Diante disso, não há dúvidas de que é uma tarefa do homem cristão andar na contramão desses números, fazendo de seu corpo um local de adoração e graça, e de sua vida e seu lar um lugar de saúde.


* Texto publicado na revista Homem Batista, primeiro trimestre de 2010.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Salmo Brasileiro

André de Barros Coelho

Das profundezas clamo a ti, Senhor.
Meu coração está coberto de nuvens negras,
como as planícies da Amazônia.
Meus olhos escondem tantas lágrimas
que os mais profundos rios não poderiam imaginar.
Minha garganta está mais seca que o chão dos sertões.
E eu nem mesmo sei explicar o que se passa comigo.

Só tu, Senhor, conheces meu coração,
pois da argila o fizeste,
antes que ele pulsasse pela primeira vez.
E agora por que não me respondes?

Chora, minha alma, e espera pelo Senhor.
Pois sabes que ele um dia vem
inundar toda esta terra seca e morta dentro de ti.
Clama, das tuas profundezas, e ele te ouvirá.

Porque só ele é a tua força.

Estácio, Rio de Janeiro, RJ
8 de janeiro de 2011


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Natal Amazônico (se Jesus fosse paraense...)


“E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, para que todo o mundo participasse do Censo. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. E subiu também José, da cidade de Santarém, à cidade chamada Belém, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.

E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em fraldas, e deitou-o num tacho de farinha de mandioca, porque não havia lugar para eles na palafita.

Ora, havia, na região das ilhas, pescadores ribeirinhos que trabalhavam durante as vigílias da noite. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor.

E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois vos nasceu hoje, na cidade de Belém, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em fraldas, e deitado num tacho.

E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.

E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pescadores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos fez saber.

E foram apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado no tacho. E, vendo-o, divulgaram a palavra que acerca do menino lhes fora dita; e todos os que a ouviram se maravilharam do que os pescadores lhes diziam. Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.

E voltaram os pescadores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes havia sido dito.”
(paráfrase de Lucas 2.1-2)
________________________________________

Me impressiona e inspira o fato de que Jesus era alguém do povo, um homem nascido numa cidade real e histórica, mas pequena em relação a Jerusalém; criado numa região periférica da nação, a ponto de Natanael ter perguntado de forma preconceituosa: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1.46). Um jovem falando em parábolas sobre o Reino de Deus, pregando o amor e a paz.

Gosto de imaginar que, se Jesus fosse brasileiro, e se fosse paraense, teria sido visitado, ainda bebê, por alguns pajés que o teriam presenteado com vasos de cerâmica decorada, patchouli e banhos de ervas. Diferente, não? Pensar que ele foi visitado por magos do oriente, que certamente estudavam os sentidos ocultos dos astros e outras coisas.

Se Jesus fosse paraense, teria navegado muitas vezes entre Belém do Pará, Macapá, Santarém e Manaus, visitando as populações suburbanas e ribeirinhas, onde teria feito seu ministério, multiplicando farinha e tucunaré para alimentar a comunidade. Entre seus discípulos mais chegados, alguns pescadores, um fiscal da receita federal e um ativista do MST.

Em sua última janta (na Bíblia chamada de “ceia”), teria tomado a vasilha de açaí nas mãos, dizendo aos discípulos: “Este é o novo testamento no meu sangue; fazei isto todas as vezes que beberdes, em memória de mim.” E, da mesma forma teria feito com a farinha de tapioca, dizendo: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.” (1Coríntios 11.24-25)

Teria sido traído por um deles, que o entregou à Polícia Federal em troca de um salário mínimo, e teria morrido em Brasília, junto a ladrões, acusado de causar perturbação pública.

Nós, brasileiros, provavelmente teríamos ficado sabendo de sua morte naquele mesmo dia, via rádio, televisão, jornais e internet. Muitos iriam rir, dizendo: “Morreu mais um maluco.” Outros diriam, como Natanael: “Pode vir alguma coisa boa do Norte?”. Outros iriam ler e ouvir sobre o seu ministério e dizer: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.” (Marcos 15.39).

Mas eu me pergunto seriamente: qual seria a minha atitude se Jesus vivesse nos dias de hoje? Eu o escutaria? Eu o abrigaria em minha casa? Eu andaria com ele? Eu me arriscaria a ser confundido com um de seus seguidores “malucos”? Eu comeria com ele à mesma mesa? Aceitaria andar como ele andou, misturado com o povo, ensinando os pobres, condenando os ricos e contrariando os sacerdotes?

Eu sou, ou não sou um discípulo de Jesus?

Encerro com este texto intitulado Bênção Franciscana, atribuída a Francisco de Assis. No advento desde ano de 2011, faço desta bênção a minha oração para a vida de cada um que me lê, assim como para mim mesmo.

Que Deus te abençoe com
um desconforto inquietante sobre as respostas fáceis,
as meias verdades e as relações superficiais,
para que possas buscar a verdade corajosa
e viver profundamente em teu coração.

Que Deus te abençoe com sagrada raiva à injustiça,
à opressão e à exploração de pessoas para que possas trabalhar incansavelmente pela justiça,
liberdade e paz entre todas as pessoas.

Que Deus te abençoe com o dom de lágrimas
para derramá-las com aqueles que sofrem de dor,
rejeição, fome ou a perda de tudo aquilo que eles amam,
para que possas estender a mão para lhes dar conforto
e transformar a sua dor em alegria.

Que Deus te abençoe com a tolice suficiente
para que creias que realmente podes fazer diferença neste mundo,
para que possas com a graça de Deus,
fazer aquilo que os demais insistem ser impossível.

E que a benção de Deus, Suprema Majestade e nosso Criador,
Jesus Cristo a Palavra encarnada que é o nosso irmão e Redentor,
e o Espírito Santo, o nosso Advogado e Guia,
seja contigo e permaneça contigo e com todos,
hoje e para sempre.

Amém.

domingo, 7 de novembro de 2010

A todos os sotaques: teologia e ministério cristão no Brasil


Penso que um ministério cristão no Brasil que não alcance as feridas sociais do brasileiro – para tratá-las, aliviá-las e, quiçá, curá-las por meio da ação da igreja e do Espírito Santo – não será um ministério completo.

Será que a igreja e seus ministros devem trabalhar para alcançar resultados, como numa relação de causa e efeito? Certamente que sim. Trabalhar de forma ordenada é necessário e útil ao trabalho da igreja. Porém é necessária muita cautela, pois alcançar resultados mensuráveis nunca deve ser tornar, para a igreja, um fim em si mesmo.

A finalidade da igreja deve ser, como diz o lema da Missão Integral, levar o evangelho todo ao homem todo, no mundo todo. O evangelho todo não se resume na mensagem salvífica da morte de Jesus, porém contém necessariamente essa mensagem. Alcançar o homem todo não indica apenas todos os homens, mas também alcançar o homem em sua totalidade, tangendo cada recôndito da alma desse homem, desde seu mais íntimo pensamento até a cultura em que está inserido.

A necessidade de afinar o ministério cristão com o trabalho social da igreja emerge da carência de identidade na consciência histórica e cultural do homem de hoje. Um povo sem memória é um povo sem identidade, sem consciência de sua cultura, de seu papel social e de seu poder de mobilização.

Entretanto, quando o homem reconhece seu papel social e decide construir a partir de hoje a memória de amanhã (que será a identidade de seus filhos), então ele está construindo um caminho de esperança e de salvação para si próprio e para sua cultura.

Nesse sentido, a igreja brasileira tem o papel fundamental de restabelecer no coração de cada patrício sua identidade e a esperança da salvação, seja pela transformação do mundo em que vive, seja pela restauração de sua própria alma, mediante o poder do Espírito Santo – ou seja, não apenas para tirar o homem da pobreza e opressão em que vive, mas para ao lado disso alcançá-lo com o Evangelho de Jesus, motivo primeiro de nossa missão.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Te Vejo, Belém

André Coelho

Deste meu rio de nuvens que me trazem do Rio de Janeiro,
avisto agora uma bruta floresta,
um rio monumental.

Minha alma canta,
como Jobim!
bebo Waldemar!

Eis que vejo meu rio de concreto e de mangueiras...

Ah! Belém!
Quanto tempo desta vez?

Tenho sonhado com teu céu,
tuas nuvens,
teus igarapés...
teu chão.

Chão que agora me recebe
no coração da floresta
de pau e pedra;
um ribeirinho da cidade.

Chão que me conhece,
que tem meu cheiro,
meu peso,
minha religião,
minha alma.

Te vejo, Belém,
da janela deste avião
e não consigo conter uma lágrima teimosa.

(pausa para uma outra lágrima).

Estou louco para suar de novo nas tuas manhãs,
para tirar a minha sesta na tua tarde,
pra sentir a brisa de água-doce da tua noite.

Vem cá, Belém,
dá cá um abraço...
Cheguei!


7 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Umãpe Xe Raperana?*

Em tupi: "Onde será o meu caminho?"


* Frase citada por Ceumar Coelho na canção Banzo.

Solo de um ribeirinho: a mesma periferia (impressões sobre o filme 5x Favela)

Diante da realidade exposta pelo diretores Manaíra Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra no filme 5x Favela – agora por nós mesmos, vem a mim uma série de perguntas iniciais: Qual é o Brasil? O que os brasileiros entendem por Brasil e brasilidade? Qual a identidade do brasileiro? O que faz do Brasil Brasil, em qualquer lugar do Brasil?

O filme tem um ar ao mesmo tempo côntico – dadas as narrativas, que lembram alguns contos de Carlos Drummond de Andrade e Lígia Fagundes Telles – e profundamente realista, numa descrição minuciosa da vida nas favelas cariocas, a qual chega a ser ainda mais verossímil do que nas produções Tropa de Elite (José Padilha, 2007) e Cidade dos Homens (Rede Globo, série, 2002-2005).


O quinto episódio do filme, Acende a Luz, dirigido por Luciana Bezerra, foi para mim o mais marcante, não pelo enredo, mas pela simbologia da idéia central, das cenas e dos argumentos.

É véspera de Natal e os moradores do morro estão sem luz. Os técnicos da companhia de energia elétrica não deram conta de restabelecer o funcionamento de um equipamento e, num esforço para tentar garantir que o serviço seja concluído antes do anoitecer, os moradores “seqüestram” um dos técnicos.

Mas a estratégia não surte o resultado desejado e, depois de muita insistência, tudo o que o técnico consegue é fazer a luz funcionar em apenas um poste em todo o morro. E é exatamente sob a luz deste único poste que a vizinhança vem comemorar o seu Natal.

A cegueira que se impõe pela falta da luz. A esperança e a espera pelo seu brilho. Uma luz dada aos homens na noite de Natal. A festa que a todos congrega. O encontro dos diferentes sob a luz.

São todos certamente temas muito interessantes para uma reflexão sobre o episódio e sua relação com o próprio sentido do Natal de Jesus.

Mas outro detalhe me vem.

Na trilha sonora de Acende a Luz, a primeira música executada chama-se Solo do Ribeirinho. Ao contrário do que a própria proposta inicial do filme possa sugerir, a música não é um funk carioca, mas uma guitarrada, ritmo tipicamente paraense, filho “pobre” das antigas guitarradas portuguesas, irmão do carimbó, e parente não muito distante do merengue caribenho, do brega paraense e da jovem guarda – referências comumente citadas pelos tradicionais mestres da guitarrada, como Aldo Sena, Curica e Vieira, ou pelos apreciadores do ritmo.

E surge uma nova questão: o que um ritmo tradicional muito pouco conhecido, que não é nacionalmente popular como a Banda Calypso, executado por mestres tocadores de viola do interior do Pará, tem a ver com a favela carioca?

Um caminho de resposta está em olhar para a periferia. O que nos dizem os moradores da favela da maré? O que nos dizem os ribeirinhos do rio Tapajós? Quais as cores e as dores dos sertanejos do Caicó e dos pescadores de Paraty? Que anseios trazem no coração os guarani do Rio Grande do Sul e os negros do Silêncio do Matá, no coração da Amazônia, próximo a Óbidos?

No princípio de 2008, acompanhei a notícia dos suicídios frequentes em tribos indígenas do Mato Grosso do Sul: em apenas um mês, mais de dez jovens se suicidaram. Um deles, que havia se enforcado, pendia em uma corda amarrada a um galho de árvore e trazia sob os pés, no chão, a inscrição: “Eu não tenho lugar”.

O anseio é um só, o grito é um só. É o grito da periferia pelo espaço, pela liberdade, pelo respeito. É um anseio, um profundo anseio, por dias melhores. Por um dia em que a luz brilhe tanto, que não mais sejam necessárias a luz do sol, da lua ou dos bulbos das lâmpadas incandescentes.

Concluo este artigo com um poema que é uma letra de música. Na verdade, um lundu¹.

O poema fala de sede, de água e de uma vida que corre como um rio.

Para o coração dilacerado e ressecado pela pobreza e pelo desrespeito, há uma água tão pura que nem existe no mundo, mas que pode ser experimentada no coração de quem tem a Jesus.

É setembro, mês em que voltam as chuvas no Brasil. Esperança de fim das queimadas que assolam o país. Esperança de boa safra no próximo verão. Esperança de libertação para os pés que foram colocados de escanteio. Esperança de salvação para o coração do homem.


Alto Mar
Arlindo Lima

Começa o dia de novo,
o sol ainda finge de morto.
Minha vida é esse rio,
represa de desafio,
que o vento filtra os brios,
pois é necessário regar.

Vamos molhar,
água levar...

“A água da vida eu cedo”.
A sede afoga o moleque
e, quanto mais cedo ela cede,
mais cedo na pesca ele investe.
A profundeza estremece,
pois vamos ganhar alto mar.

Vamos pescar,
água levar...

Mas temo a maré quando baixa,
pois nem chuva forte lhe basta.
Eu me distancio da margem,
o barro é a minha imagem.
Então busco a fonte, verdade,
pra água da vida tomar

Vou me molhar,
água tomar...


Ouvir "Mestres da Guitarrada - Solo do Ribeirinho"


Ouvir "Arlindo Lima - Alto Mar"



NOTAS
1. Lundu: dança ritmada por tambores, parte do folclore nortista paraense registrado por Mário de Andrade em suas viagens pelo Brasil nas primeiras décadas do século XX e ainda hoje muito apreciada nas rodas de danças folclóricas em Belém.


FONTES
5x Favela: agora por nós mesmos. Disponível em: www.5xfavela.com.br, acesso em 02 de setembro de 2010.

sábado, 24 de abril de 2010

Antiga ocorrência policial

André Coelho

Bem ali,
na Rua da Cadeia,
um alemão matou uma gorda senhora que tocava violão
na mesma calçada em que um indiozinho todos os dias vem vender seus cordões de contas coloridas.

Ninguém sabe,
ninguém viu.
Ninguém supõe.

Mas tenho impressão de que, neste lugar, as paredes falam.

Paraty, RJ
24 de abril de 2010

De volutas e beirais

André Coelho


Uma ruela
que se perde em outra ruela,
que se perde em outra ruela,
que vai dar no mar.

Uma igrejinha de uma torre só,
uma outra sem torres,
um Caminho do Ouro sem ouro.

Aquilo que fez a vida um dia parar
hoje é motivo de vida.

E a mesma vida segue,
volutosa,
barroca,
simples,
antiga...
correndo parada.
"Como se não existisse chegada
na tarde distante,
ferrugem 
ou nada."
(Djavan - A Rota do Indivíduo)

Paraty, RJ
24 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Comentário à 'Carta aberta ao blog "Um que Tenha" (e à mídia brasileira)'

André Coelho

(conferir postagem anterior: Cristofobia - vejam que situação!)



Essa é uma questão que já tá rolando há algum tempo, e que começa a se configurar em um fenômeno social seríssimo de discriminação e quase intolerância religiosa. E olha que, hoje, no Brasil, intolerância religiosa já é crime.

Não podemos admitir isso. Não é porque sejamos cristãos, pacificadores em nossa maioria, que tenhamos que aceitar calados essa separação que a mídia tem ensinado a sociedade a fazer, de que os cristãos (evangélicos) são pobres, burros e sem cultura.

As mulheres, os gays, os negros, os índios, todos têm conquistado seu espaço. Está na hora dos cristãos, com sabedoria, reinvidicarem os mesmo direitos, já que estamos numa república livre e pretensamente igualitária, ou que busque a igualdade.

Além disso, está na hora dos cristãos caírem em si e pararem de viver como se fossem guetos. Isso não é saudável, não é cristão, não é bíblico. Como bem citado aí em cima, a maré gospel brasileira de hoje vai completamente de encontro (contra) aos ensinamentos jesuanos de sermos "sal da terra e luz do mundo".

Só seremos a luz do mundo se estivermos no mundo. Só seremos sal da terra se permanecermos no mesmo "planeta" dos demais humanos. Foi por isso que Jesus não pediu a Deus que nos tirasse do mundo, porém que nos livrasse do mal.

É hora de parar, refletir, unir as forças e o pensamento para "brigarmos" por nosso espaço dentro da república brasileira. Precisamos espalhar esta idéia. Passar adiante situações como a vivida agora pelo Sérgio e pela Marivone. Levar essa discussão para nossas igrejas, para os grupos de estudo da Bíblia, salas de aula, universidades, consultórios, para as ruas, elevadores e para dentro de nossas casas.

Que Deus nos abençoe a todos com inquietação, discernimento, coragem, muita graça e muita paz.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

sarau da comuna


Arte, cultura e espiritualidade. Um encontro de artistas cristãos mais preocupados com o Reino de Deus do que com o mercado “gospel”. Um espaço para apreciar, discutir e engajar-se na Beleza da Verdade e na Verdade da Beleza. Uma oportunidade de crescimento para músicos, cantores e ministros de louvor e adoração que desejam enfrentar a mediocridade e a mesmice.

Quando:

1º e 2º de maio, na Igreja Batista Itacuruçá.
1º de maio - início da programação às 17h, até a noite
2 de maio - início da programação às 10h, até a noite

Igreja Batista Itacuruçá
Praça Barão de Corumba, nº 49

Artistas convidados:

Jorge Rehder
Gerson Borges
Jorge Camargo
Roberto Diamanso
Stênio Marcius
Silvestre Kuhlmann
Glauber Plaça
Eduardo Mano e Banda
Palavrantiga
Elly Aguiar

Programação:

Atualizaremos a programação na próxima semana. Não deixe de acessar a página. Para outras informações, entre em contato com o Daniel Bravo através do e-mail bravoduarte@gmail.com

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Copie a imagem abaixo e distribua para sua lista de e-mail.

retirado de http://eduardomano.net/

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Casa de Farinha

Thiago Azevedo (Belém-PA)

No roçado de mandiotuba
Raiz de mandioca brotou,
Braquinha, cruvela, engana-ladrão,
Tantos nomes, uma visão.

Palavra semeada na terra
Floresce como maniva,
Meu coração é manipeba,
Na água amolece minha vida.

Casa de farinha,
Mandioca triturada,
Meu ser no fogo torrada,
Farinha pura tirar.

Deus, peneira minha vida,
Pra purificar minha essência,
Pai, nesse mundo de carência,
Manipueira não queria.

Sou farinha de mandioca,
Da palavra semeada,
Alimento de gente necessitada

Deus fazedor de farinha,
Celebrar na farinhada,
Cantar num som brasileiro
A alegria dessa toada.
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