Silêncio urgente e necessário.
Ressignificação da pausa.
Desaceleração.
Contemplação.
Monotasking.
Não-registro.
Desconexão.
Equilíbrio.
Quietude.
Reconexão.
os montes, ah! os montes... / contam histórias tão distantes / de açaizeiros, igarapés, / dos tempos de antes, / lembranças, sussurros e saudades / aos montes. (Minas Gerais, rodovia Rio-Brasília, 20 de dezembro de 2005)
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natureza
Minas
Sampa
literatura
ministério
Macapá
Missão
Natal
Sarau da Comuna
cinema
criança
família
teologia
tragédia
vídeo
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Gaia e Cloud Atlas
Enquanto novamente escuto, embevecido, o álbum Gaia (2000), de Nilson Chaves, após ter assistido ao intrigante filme A Viagem¹ (2012), penso que a humanidade esteja cada vez mais distante da conexão original com a Terra – e com o seu Criador, a quem muitos como eu insistem em chamar de Deus –, o que traz enormes problemas na atualidade e anuncia um futuro de consequências catastróficas.
Opto pela poesia. Opto pelas utopias. Pelas relações simples de trabalho, de amizade e de amor e procuro aprender mais e mais os segredos da vida eterna e simples.
Que o Criador tenha misericórdia de nós.
___
MONÓLOGO DO ÍNDIO
Nilson Chaves
Perdido de mim, não sei,
não sei ser mais o que sou
e nunca poderei deixar de ser.
De mim me perco e esqueço
do que sou na precisão,
que já tenho de imitar
aquilo que os brancos são.
Uma apenas tentativa
inútil que me dissolve
na dor que não me devolve
o poder de me encontrar.
Já desmembrado da glória
radiosa de conviver,
já perdido o parentesco
com a água, o fogo e as estrelas,
já sem crença, já sem chão,
oco e opaco, me converto
em depósito dos restos
impuros do ser alheio.
Resíduo de mim, a brasa
do que já foi me reclama,
como a luz que me conhece
de uma estrela agonizante
dentro do ser que perdi.
___
1. Cloud Atlas – Dirigido por Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski. Ano: 2012.
Opto pela poesia. Opto pelas utopias. Pelas relações simples de trabalho, de amizade e de amor e procuro aprender mais e mais os segredos da vida eterna e simples.
Que o Criador tenha misericórdia de nós.
___
MONÓLOGO DO ÍNDIO
Nilson Chaves
Perdido de mim, não sei,
não sei ser mais o que sou
e nunca poderei deixar de ser.
De mim me perco e esqueço
do que sou na precisão,
que já tenho de imitar
aquilo que os brancos são.
Uma apenas tentativa
inútil que me dissolve
na dor que não me devolve
o poder de me encontrar.
Já desmembrado da glória
radiosa de conviver,
já perdido o parentesco
com a água, o fogo e as estrelas,
já sem crença, já sem chão,
oco e opaco, me converto
em depósito dos restos
impuros do ser alheio.
Resíduo de mim, a brasa
do que já foi me reclama,
como a luz que me conhece
de uma estrela agonizante
dentro do ser que perdi.
___
1. Cloud Atlas – Dirigido por Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski. Ano: 2012.
Dádiva
Nilson Chaves
Nada mais índio do que este astro,
nada mais astro do que este índio,
nada mais âmago, nada mais mago,
nada magoa, algo nagô.
Nada mais rastro do que estes passos,
nada mais pelos espaços indo,
nada mais ávido, nada mais lindo,
nada mais digno, gnomo, gnu.
Nada mais nave do que este disco,
nada mais disco do que esta nave,
nada mais ovni, nada mais new,
nada mais love ou vinil,
nada mais leve do que o voo da ave,
do que ouvi-lo em silêncio,
no silêncio do óvulo.
Nada mais vida do que este parto,
a dádiva viva na Era de Aquários,
nada mais grávido, nada mais vivo,
nada mais groove, indigo blue.
Nada mais índio do que este astro,
nada mais astro do que este índio,
nada mais âmago, nada mais mago,
nada magoa, algo nagô.
Nada mais rastro do que estes passos,
nada mais pelos espaços indo,
nada mais ávido, nada mais lindo,
nada mais digno, gnomo, gnu.
Nada mais nave do que este disco,
nada mais disco do que esta nave,
nada mais ovni, nada mais new,
nada mais love ou vinil,
nada mais leve do que o voo da ave,
do que ouvi-lo em silêncio,
no silêncio do óvulo.
Nada mais vida do que este parto,
a dádiva viva na Era de Aquários,
nada mais grávido, nada mais vivo,
nada mais groove, indigo blue.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Cá
para Ceumar Coelho
para Macapá
para Macapá
Cá, no meio do mundo,
a vida corre mansa,
como beira de rio.
Cá, no meio do mundo,
os homens dão bom-dia,
as mulheres dão sorriso.
Cá, no meio do mundo,
há um cais, uma praça, uma fortaleza,
onde a vida se faz de adeuses e olás.
Cá, no meio do mundo,
o dia é mais quente,
o vento, mais forte,
os rios, mais largos,
as noites, mais calmas,
as amizades, mais profundas.
Cá, no meio do mundo,
onde não há começo nem fim,
a vida, a gente inventa.
O dia, a gente faz.
E o rio, a gente admira...
admira...
admira...
---
André Coelho
Macapá, 24 de outubro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
O Olhar do Estrangeiro
- Os indivíduos estão se transformando em personagens.
- A repetição ao infinito banaliza as imagens, transformando-as em clichês.
- A velocidade provoca um achatamento da paisagem.
- A arquitetura perde espessura.
- Entramos na era da produção do real.
- Aqui tudo é linguagem, signo.
Nelson Brissac-Peixoto
- A repetição ao infinito banaliza as imagens, transformando-as em clichês.
- A velocidade provoca um achatamento da paisagem.
- A arquitetura perde espessura.
- Entramos na era da produção do real.
- Aqui tudo é linguagem, signo.
Nelson Brissac-Peixoto
---
Se você ainda não criou seu personagem, pare e reflita: você existe?
.
.
.
.
.
.
Se você ainda não criou seu personagem, pare e reflita: você existe?
.
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.
.
.
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quinta-feira, 18 de julho de 2013
[DES]ENCONTRO
para Davi e Daniel Coelho
Que dos adeuses
restem apenas os olás
e da saudade
os abraços trocados.
Que tornem-se braços dados
os acenos
e sejam plenos
e sagrados:
palavra, dor e sentimento
que se haja trocado.
Que a tristeza do afastar-se
sirva apenas para lembrar
que houve o encontro
e que a saudade
se torne, não choro,
mas um trazer para perto
o que se foi.
Que amigos sejam irmãos.
Que irmãos sejam um só.
Para que não haja desencontro.
---
André Coelho
Macapá, 15 de julho de 2013
domingo, 8 de abril de 2012
A Escuridão me Basta
Thomas Merton (1915-1968)
Senhor, é quase meia-noite e estou te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.
Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão,
sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos
para preencher o vazio da noite na qual espero por ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos,
a fim de permanecer na doce escuridão da fé pura.
Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre.
Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo,
estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em tua paz e tua glória.
Tua claridade é minha escuridão.
Eu não conheço nada de ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado. Se te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que te conheço, serei louco.
A escuridão me basta.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
O Que Há
Álvaro de Campos*
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
---
* Fernando Pessoa
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Corridinho
Adélia Prado
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Semeio (ainda que)
André Coelho
Ainda que seque a flor,
semeio.
Por toda a terra sem água,
tanta febre quanta for,
ou pura tristeza e mágoa.
Ainda que à própria vida,
já por inteiro esgotada
de toda vida quanto há,
falte um sorriso, que falte lar,
ou falte o leite no seio,
ainda que tudo vá.
que tudo vá.
Semeio.
---
Lança o teu pão sobre as águas,
porque depois de muitos dias o acharás.
Reparte com sete, e ainda até com oito,
porque não sabes que mal haverá sobre a terra.
(Coélet, Eclesiastes 11.1-2)
---
postagem original:
http://papaxibe.flogbrasil.terra.com.br/
30 de julho de 2006 - Rio de Janeiro, RJ
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Nicolau tinha uma ideia
Ruth Rocha
Era uma vez um lugar onde cada pessoa só tinha uma ideia na cabeça. [...] Um dia, apareceu um homem chamado Nicolau. [...] Logo que Nicolau chegou, foi procurar João. E contou sua ideia a ele. E João ficou com duas ideias na cabeça. João contou a ideia dele para Nicolau. E Nicolau ficou com duas ideias na cabeça.
Aí, Nicolau foi contar sua idéia para Maria. E Maria ficou com duas idéias na cabeça. E contou a Nicolau a ideia dela. Nicolau ficou com três ideias na cabeça. Nicolau falou com Pedro, com Manuela e uma porção de gente mais.
Nicolau ficou cheio de ideias. E as ideias de Nicolau começaram a se misturar umas com as outras e a formar muitas outras ideias. Então, as pessoas começaram a achar que era muito divertido ter muitas ideias na cabeça. [...]
E naquele lugar, agora, todo mundo tem uma porção de idéias.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Planeta Coração
Toda vez que eu desanimo,
eu envelheço um pouco.
Às vezes tenho dez anos
e viajo feito um louco.
Planetas, cometas, satélites,
nada me segura.
Tenho o mundo a meus pés
e, nas mãos, só ternura.
Quem viaja comigo
nessa cápsula embarcação?
Vamos seguir tranquilos,
vamos conhecer o Japão!
Tua presença é combustível
pro foguete-coração,
que me anima na hora certa
pra cantar feito criança
esta canção.
Ceumar
eu envelheço um pouco.
Às vezes tenho dez anos
e viajo feito um louco.
Planetas, cometas, satélites,
nada me segura.
Tenho o mundo a meus pés
e, nas mãos, só ternura.
Quem viaja comigo
nessa cápsula embarcação?
Vamos seguir tranquilos,
vamos conhecer o Japão!
Tua presença é combustível
pro foguete-coração,
que me anima na hora certa
pra cantar feito criança
esta canção.
Ceumar
sábado, 10 de dezembro de 2011
Neo-Separatismo: a divisão de Afuá
Surfando na pororoca
da divisão do Pará,
os caboclos ribeirinhos
pegaram corda por lá
e avivaram sonho antigo
que agora em versos lhes digo:
a divisão do Afuá.
A turma pró-divisão
chegou pronta pra bater
usando o velho argumento:
“Dividir para crescer!”
E, nesse hilário teatro,
em vez de um, seriam quatro
municípios, a saber:
Na campanha eletrizante
feito peixe poraquê,
cada parte caprichava
no tro-ló-ló, tre-le-lê.
E essa divisão patética
seria na ordem alfabética:
Afu-Á, B, C e D.
O Afu-Á remanescente
seria das bicicletas,
no Afu- B , só Jet-skis,
no Afu- C , motocicletas.
No Afu-D... Oh! Deus do céu,
deu-se o maior escarcéu
com piadas indiscretas.
O padre, no seu sermão,
conclamou filhos e pais,
mostrando, nesse processo,
perdas e danos morais
e afirmava, sem desdém:
– Até Afucê, tudo bem,
mas Afudê, já é demais!
E nesse chove-não-molha,
deu-se o maior bafafá
entre os neo-separatistas
e os puritanos de lá
que incitavam a multidão
e bradavam: – Não e não!
Ninguém divide o Afuá!!!
**
Antonio Juraci Siqueira
caboclo afuaense juramentado.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A música paraense por Nelson Motta
"Tenho especial encanto por esse pessoal de Belém. O novo disco da Gaby Amarantos é absolutamente sensacional. Lia Sofia também é uma cantora e compositora muito boa de lá. E, na guitarrada, Felipe Cordeiro é um cantor e compositor muito bom. É carimbó, com bom uso daquele tecladinho safado de tecnobrega. Tem também a Gang do Eletro. Ouvi também o novo disco da Marina de la Riva e acho que ela encontrou o caminho com um repertório latin chic. Ela não é cool."
Nelson Motta
IstoÉ Gente nº 623, coluna Diversão & Arte
Nelson Motta
IstoÉ Gente nº 623, coluna Diversão & Arte
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Livra-me da Autossuficiência
Israel Belo de Azevedo
Livra-me, Senhor, dos autossuficientes,
que palitam suas conquistas
que vão enfileirando em douradas listas.
Livra-me, Senhor, dos habitantes
dos castelos das certezas brilhantes
que não dão lugar à dúvida,
a dúvida nenhuma, sob hipótese alguma.
Livra-me da influência
dos que cultuam sua própria inteligência,
que afagam no temor de não ver reconhecida,
enquanto sorriem para aqueles que põem aquém da sua corrida.
Senhor, meu eu ajoelhado te clama:
livra-me, a mim principalmente,
de ser o que condeno, porque a tentação me pressiona.
---
retirado de http://prazerdapalavra.com.br
reproduzido com autorização
sexta-feira, 22 de julho de 2011
A vida dos 15 aos 30
Quando se é adolescente, a vida parece uma grande questão que precisa ser resolvida com urgência. Os amigos, momentos, nada se pode perder.
Perto dos 30 anos, a gente começa a descobrir que a vida não é urgente. É um futuro que a gente constrói a cada amigo ou momento de hoje.
Aos 30 anos, viver é uma arte. O vigor da juventude e a responsabilidade das escolhas. Uma boa estrada já trilhada, e outra longa a trilhar.
Bobagem querer parecer a idade que não se tem, querer ser o que não se é. Chega um dia em que a gente descobre que não pode fugir do óbvio.
Como disse Carlos Drummond de Andrade:
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
A todos um ótimo dia.

sexta-feira, 10 de junho de 2011
13º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens
13º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens - www.fnlij.org.br
Centro de Convenções Sul América
Av Paulo de Frontin, 1 – Centro, Rio de Janeiro, RJ
Metrô:
Estação Estácio – Linha 1
Estação Cidade Nova – Linha 2
Estacionamento no local
Ingresso - R$4
terça-feira, 7 de junho de 2011
Sobre missão, música e brasilidades - carta aos meus colegas do STBSB
Caros teólogos, pastores, professores e missionários,
Acredito que só vamos aprender a falar do evangelho à alma do brasileiro quando conhecermos a "nossa" cultura (do nosso povo). E não se conhece cultura sem conhecer a música, a produção literária, as comidas, as lendas, os mitos, os medos, as histórias. A gente não precisa ter medo da nossa cultura. Ela pode ser estranha. Mas é estranha pra nós, criados em outra cultura, evangélica-norte-americana.
Ainda precisamos ir muito aos sertões das secas e das águas do Brasil, ouvir o carimbó e as toadas de boi amazônicos, o baião e os xotes do nordeste, os violeiros caipiras do jequitinhonha, do Pantanal, das terras altas da caatinga baiana... coisas que o Brasil mal conhece, regiões de produção cultural fenomenal... e que muito menos o Brasil evangélico conhece, pois geralmente não olha pra dentro do Brasil, e sim para fora.
Além disso, a gente mora dentro de uma cidade que "se basta". Rio de Janeiro, umbigo do Brasil. Sinceramente... a gente tá aqui dentro e não faz a menor ideia do que seja o Brasil. Pra quem não pretende sair deste mundo aqui, pra que conhecer mais do que isto? Beleza. Pra quem tem planos de ir morar fora do Brasil, posso concordar que o processo de inculturação deva acontecer de outra forma. Então pra que conhecer o Brasil de verdade, não é mesmo? Rs.
Mas pra quem pretende se dizer brasileiro, samba é só o começo da caminhada, galera...
Graças a Deus, depois que vim morar no Rio, aprendi a gostar de samba. E vou confessar que eu não sabia apreciar a beleza negra, porque em Belém a maioria da população é de brancos, pardos, índios e japoneses [sic]. Ainda bem que meus conceitos mudaram e hoje eu namoro uma mulata linda que Deus me deu... ô bênça! Como disseram Martinho da Vila e Zeca Baleiro: "Salve a mulatada brasileira! Salve! Salve!"
Recomendo 3 músicas brasileiras – de verdade rs – compostas por cristãos evangélicos, um deles judeu. Um baião, um carimbó e um canto "sertanez". Desejo que elas os inspirem, como inspiram a mim sempre que ouço. Se quiserem, podem ouvir e acompanhar as letras nos links:
Antes que Seque a Flor
Céu na Boca (Brasília, DF) - baião (inspirado em Eclesiastes 11-12)
Esta Cidade
Arlindo Lima e Tallita Barros (Tucuruí, PA e Belém, PA) - carimbó (inspirado no texto do profeta Sofonias)
Campo Branco
Elomar Figueira de Mello (Vitória da Conquista, BA)
Um forte abraço.
André Coelho
Acredito que só vamos aprender a falar do evangelho à alma do brasileiro quando conhecermos a "nossa" cultura (do nosso povo). E não se conhece cultura sem conhecer a música, a produção literária, as comidas, as lendas, os mitos, os medos, as histórias. A gente não precisa ter medo da nossa cultura. Ela pode ser estranha. Mas é estranha pra nós, criados em outra cultura, evangélica-norte-americana.
Ainda precisamos ir muito aos sertões das secas e das águas do Brasil, ouvir o carimbó e as toadas de boi amazônicos, o baião e os xotes do nordeste, os violeiros caipiras do jequitinhonha, do Pantanal, das terras altas da caatinga baiana... coisas que o Brasil mal conhece, regiões de produção cultural fenomenal... e que muito menos o Brasil evangélico conhece, pois geralmente não olha pra dentro do Brasil, e sim para fora.
Além disso, a gente mora dentro de uma cidade que "se basta". Rio de Janeiro, umbigo do Brasil. Sinceramente... a gente tá aqui dentro e não faz a menor ideia do que seja o Brasil. Pra quem não pretende sair deste mundo aqui, pra que conhecer mais do que isto? Beleza. Pra quem tem planos de ir morar fora do Brasil, posso concordar que o processo de inculturação deva acontecer de outra forma. Então pra que conhecer o Brasil de verdade, não é mesmo? Rs.
Mas pra quem pretende se dizer brasileiro, samba é só o começo da caminhada, galera...
Graças a Deus, depois que vim morar no Rio, aprendi a gostar de samba. E vou confessar que eu não sabia apreciar a beleza negra, porque em Belém a maioria da população é de brancos, pardos, índios e japoneses [sic]. Ainda bem que meus conceitos mudaram e hoje eu namoro uma mulata linda que Deus me deu... ô bênça! Como disseram Martinho da Vila e Zeca Baleiro: "Salve a mulatada brasileira! Salve! Salve!"
Recomendo 3 músicas brasileiras – de verdade rs – compostas por cristãos evangélicos, um deles judeu. Um baião, um carimbó e um canto "sertanez". Desejo que elas os inspirem, como inspiram a mim sempre que ouço. Se quiserem, podem ouvir e acompanhar as letras nos links:
Antes que Seque a Flor
Céu na Boca (Brasília, DF) - baião (inspirado em Eclesiastes 11-12)
Esta Cidade
Arlindo Lima e Tallita Barros (Tucuruí, PA e Belém, PA) - carimbó (inspirado no texto do profeta Sofonias)
Campo Branco
Elomar Figueira de Mello (Vitória da Conquista, BA)
Um forte abraço.
André Coelho
terça-feira, 19 de abril de 2011
Canção dos Trinta
Eis um dia novo
que irrompe entre os casarões
e os jardins fechados
de uma rua antiga.
Eis semitons sutis
de trinta (e um) abris,
pastéis-cor-de-giz
sobre o velho quadro-negro.
E tu, que me abris
o portão enferrujado,
não notas que cresce ao lado
aquela horta de alecrim,
manjericão e anis?
Observa seu olor,
seu sabor, sua prumada;
e retoma a caminhada.
Eis que vem, vem bem perto,
uma chuva no deserto
dessa cidade em chamas,
após outro longo verão.
Eis um monte.
Uma cruz avermelhada.
Olhares descrentes;
medrosos; ausentes.
Cabeça curvada.
Um grito.
E o nada.
Eis o dia do silêncio.
O dia da saudade.
Dia do pensar
e dia do pesar.
Eis um dia novo
que irrompe por entre as frestas
e a pedra lavrada
de uma tumba antiga.
Eis um portão aberto,
uma pedra removida,
a janela escancarada.
Eis um hoje e amanhã da caminhada.
Eis uma criança que volta a sorrir,
a sanfona que volta a chorar,
boa erva que torna a brotar,
uma casa que torna a se abrir.
Eis um filho,
trinta passos dados,
velho caminho, onde muitos antes.
Muitos antes andaram,
mas caminho novo, dia novo
como é novo todo dia.
Eis um menino,
um papel e uma caneta.
Trinta anos, trinta abris
e mais um poema perneta.
--
Rio de Janeiro
19 de abril de 2011
que irrompe entre os casarões
e os jardins fechados
de uma rua antiga.
Eis semitons sutis
de trinta (e um) abris,
pastéis-cor-de-giz
sobre o velho quadro-negro.
E tu, que me abris
o portão enferrujado,
não notas que cresce ao lado
aquela horta de alecrim,
manjericão e anis?
Observa seu olor,
seu sabor, sua prumada;
e retoma a caminhada.
Eis que vem, vem bem perto,
uma chuva no deserto
dessa cidade em chamas,
após outro longo verão.
Eis um monte.
Uma cruz avermelhada.
Olhares descrentes;
medrosos; ausentes.
Cabeça curvada.
Um grito.
E o nada.
Eis o dia do silêncio.
O dia da saudade.
Dia do pensar
e dia do pesar.
Eis um dia novo
que irrompe por entre as frestas
e a pedra lavrada
de uma tumba antiga.
Eis um portão aberto,
uma pedra removida,
a janela escancarada.
Eis um hoje e amanhã da caminhada.
Eis uma criança que volta a sorrir,
a sanfona que volta a chorar,
boa erva que torna a brotar,
uma casa que torna a se abrir.
Eis um filho,
trinta passos dados,
velho caminho, onde muitos antes.
Muitos antes andaram,
mas caminho novo, dia novo
como é novo todo dia.
Eis um menino,
um papel e uma caneta.
Trinta anos, trinta abris
e mais um poema perneta.
--
Rio de Janeiro
19 de abril de 2011
sábado, 26 de março de 2011
Visão do horror e visão da esperança: o desastre de Fukushima e as visões de Ezequiel
O mundo foi tomado há exatos 15 dias pela notícia de um forte terremoto seguido de tsunami no nordeste do Japão – talvez o mais terrível terremoto da história desse país.
A polícia japonesa contabilizou até hoje 10.151 mortos e mais de 17.053 desaparecidos como conseqüência do desastre natural que abalou a região e provocou ainda um grave acidente nuclear em um dos reatores nucleares da usina elétrica da província de Fukushima.
Os comentários em relação ao acidente têm sido os mais diversos. Há quem atribua a tragédia a uma reação da natureza à ação devastadora do homem no planeta Terra. Há quem a considere um castigo divino, ou um sinal do fim dos tempos. Há quem a tome como apenas mais um evento da natureza que, infelizmente, atingiu uma usina nuclear.
Leituras e leituras sobre a catástrofe não irão vencer a visão de um homem que está dirigindo o seu carro sobre uma rodovia e se vê repentinamente tomado de todos os lados por um tsunami devastador. Também não darão respostas ao coração da mãe que viu sua casa ruir, seus filhos perderem-se no entulho da onda gigante e que agora está sozinha, sem abrigo e sem família.
A pergunta inevitável que, precoce ou tardia, vem à mente é “Onde estava Deus quando isso aconteceu?”. Será que foi Deus quem moveu a natureza contra o próprio homem, como se fosse um castigo? Ou será que Deus apenas estava de braços cruzados, observando enquanto tudo acontecia, sem tomar atitude alguma? Será que Deus está cego ao sofrimento do homem?
A vida e o ministério do profeta-sacerdote Ezequiel podem-nos ser muito inspirativas nesse sentido. Ezequiel é tido hoje pelos cristãos como um dos maiores profetas da antiguidade e pelos judeus como um dos principais sacerdotes a estabelecer os pilares da religião judaica. De qualquer forma, foi um homem que soube conciliar o ministério profético (oráculos divinos, denúncia de injustiça social, chamada ao arrependimento, etc.) com o ministério sacerdotal (ensino, serviço do templo, separação entre sagrado e profano, etc.).
Mas o que dá a Ezequiel as “credenciais” que o tornam relevante ao falarmos de catástrofes são as visões descritas em seu livro. Sobre as narrativas das visões de Ezequiel paira sempre uma atmosfera de horror sagrado diante do mistério do divino. A visão do vale de ossos secos – que, ao sopro divino, se reanimam, começam a criar juntas e medulas, músculos, carne e voltam à vida, formando um enorme exército – é um bom exemplo.
Ao homem a quem Deus deu visões de horror, certamente também ele deu respostas e palavras de conforto e esperança que vencem o horror, vencem o mistério que é a própria atuação divina e tangem a alma que está estarrecida diante de uma tragédia.
Refletindo sobre as perguntas acima, encontramos algumas respostas no livro de Ezequiel e em outros livros da Bíblia que nos permitem fazer as seguintes afirmações:
1. Deus não utiliza a natureza contra o homem
a) o homem é quem manipula a natureza a seu desfavor: Em primeiro lugar, Deus não utiliza a natureza contra o homem, mas é o próprio homem, a quem Deus imbuiu de um espírito criador, quem manipula e modifica a natureza, às vezes a seu favor, às vezes a seu desfavor;
b) o homem é a coroa da criação, mas também está sujeito à natureza: O livro do Gênesis conta-nos sobre quando Deus criou o mundo. Deus criou o homem e o colocou como coroa sobre toda a criação. Das criaturas de Deus, o homem é a mais complexa, a mais inteligente e a única que Deus criou à imagem e sua semelhança. Porém, ainda que seja a “coroa” da criação de Deus, o homem está sujeito à natureza. O homem não consegue evitar, por exemplo, que o tempo passe – o tempo é definido pela natureza dos astros. O homem também não pode evitar que o outono passe e venha o inverno, muito menos pode evitar o movimento das marés, o ciclo das águas, o dia e a noite. A natureza está em constante movimento, e isso faz parte de sua saúde; não é uma catástrofe. O homem precisa admitir que também está sujeito a esse movimento da natureza em torno de si.
c) Deus tem um pacto de vida com homem, de não destruí-lo por meio das águas: Vamos mais uma vez ao Gênesis. A Bíblia conta que, certa vez, Deus olhou para a humanidade, viu a sua maldade e resolveu destruir todos os homens, preservando a vida de apenas uma família, a de um homem chamado Noé, que sobreviveu porque construíra um barco, conforme a ordem de Deus. Ao final dessa narrativa, Deus coloca no céu o arco-íris e faz um pacto com Noé, de que nunca mais irá destruir a humanidade por meio das águas. Por esse motivo, não devemos pensar que um desastre como a morte de milhares de pessoas por um tsunami tenha sido causado por Deus.
2. Deus não está de braços cruzados
a) a natureza anuncia a cada dia o mover das mãos do Senhor: O Salmo 19 nos diz que o céu anuncia a obra das mãos de Deus, e que um dia fala sobre isso ao outro dia, assim como uma noite fala à noite seguinte. Isso é uma metáfora poética para nos afirmar que a criação é a primeira revelação de que Deus existe e de que ele não está de braços cruzados – pois dá a cada dia ao homem o calor do sol e o descanso da noite. Deus está, portanto, em constante movimento para abençoar o homem. Deus não está, de forma alguma, sentado em uma poltrona, como se fosse um espectador numa platéia-de-uma-pessoa-só, assistindo ao espetáculo da vida humana (tragédia ou comédia grega?), comendo pipoca e tomando guaraná.
b) o tempo de Deus não é o nosso tempo: O apóstolo Pedro (2Pe 3.8) afirma que, para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Nós, seres humanos, estamos limitados, “presos” à contagem de dias do planeta Terra. Mais uma vez, Deus não vê passar o mundo como passa uma escola de samba que atravessa a avenida Marquês de Sapucaí e tem um tempo cronometrado para cumprir seu papel. Deus vê todos os tempos: começo, meio e fim. E novo começo. E Deus já preparou aquilo que ainda há de vir.
c) Deus pede que o homem tenha atitude: Deus deseja que o homem movimente-se no sentido de aproximar-se dele. É necessária uma constante renovação interior: é preciso um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 18.31).
3. Deus não está cego
a) Deus vê o nosso sofrimento: Já que estamos falando em sofrimento, que tal falarmos em pecado? Sim, o pecado também leva ao sofrimento, a um sentimento enorme de culpa e a um distanciamento de Deus. Deus vê o nosso pecado? Sim, com certeza, e disso não temos dúvida. O próprio Espírito nos testifica de que, quando pecamos, estamos em um caminho errado e que Deus tem conhecimento disso. Da mesma forma que Deus vê o nosso pecado, ele vê o nosso sofrimento.
b) Deus não tem prazer no nosso sofrimento: A Bíblia afirma em Ezequiel 18.32 que Deus não sente prazer com a morte de ninguém, portanto Deus não tem prazer no nosso sofrimento, assim como não teve prazer na morte daqueles quase 11 mil homens no Japão.
c) O homem tem responsabilidade pelo seu pecado: Embora um terremoto seguido de tsunami seja uma ocorrência comum na natureza e provavelmente não esteja relacionada à ação do homem ou de Deus, não podemos fechar os olhos ao fato de que, com o nosso pecado, “cavamos a nossa própria cova”, como dizia um professor meu na faculdade de Arquitetura. Quando pecamos, ofendemos a Deus. Mas, muito mais do que isso, o pecado nos coloca distantes dele. Quando pecamos contra o nosso próximo, o pecado nos distancia do próximo.
E quanto à natureza? Existe pecado contra a natureza, contra a criação? Certamente, quando pecamos contra o planeta terra, nos distanciamos da natureza e de seu Criador, e apressamos mais um pouquinho o dia da nossa morte, ou talvez da morte de alguém próximo a nós. É necessário que cada um assuma a responsabilidade que tem sobre seu próprio pecado (Ez 18.1-4).
Uma visão da esperança
Na visão do vale de ossos secos narrada por Ezequiel, aquilo que era horror se converte em vida. Deus não deseja que a humanidade torne-se e permaneça como um monturo de ossos ressequidos e sem vida alguma. Deus não deseja que o homem permaneça afastado dele (que é a morte espiritual).
O profeta Ezequiel, em seu livro, anuncia pela primeira vez um Messias que será um “pastor” (Ez 34.23; 37.24), em vez de um “rei”. Anuncia que a glória de Deus voltará a preencher o seu santo Templo (Ez 43) e que o próprio Deus dará ao homem novo coração e novo espírito (Ez 11.19; 36.26). Deus estabelecerá uma nova aliança, mas não para recompensar o povo por sua “volta” para ele, e sim por pura benevolência e graça (16.62-63).
O Deus que Ezequiel anuncia é um Deus que concede perdão ao homem em graça. É um Deus que abomina o mal e o pecado, mas um pastor que cuida do seu rebanho como quem cuida de ovelhas que não sabem por onde devem andar. Um Deus que constrói um Templo novo, estabelece uma nova aliança, dá novo coração e novo espírito.
O Apocalipse de João nos fala nesse mesmo Deus, que um dia irá criar novo céu, nova terra. Um Deus que, em pessoa, enxugará dos olhos dos homens toda lágrima. E não haverá mais morte, nem choro, nem clamor, nem dor. Porque Deus fará novas TODAS as coisas (Ap 21.1-7).
Se no tempo presente não temos respostas, se a morte de mais de 10 mil pessoas em um único dia por conta de um desastre natural nos assusta, devemos descansar a nossa alma em Deus, sabendo que estamos ainda no tempo das “primeiras coisas” (Ap. 21.4), que um dia irão passar. Devemos permanecer seguros de que, em Cristo, a morte será apenas a separação do nosso corpo, pois na eternidade iremos habitar com ele.
Encerro com uma poesia, que é uma música, de Vital Lima, chamada “Sobreviventes”:
As cidades sabem
que as explosões
podem destruir as casas,
soterrar os sentimentos,
nossas canções.
Mas as cidades também sabem
que um coração,
um coração teimoso
reconstruirá escombros
e as nossas canções.
E que há de florescer outra realidade
a plantar-se entre os amantes
e sobreviventes.
A polícia japonesa contabilizou até hoje 10.151 mortos e mais de 17.053 desaparecidos como conseqüência do desastre natural que abalou a região e provocou ainda um grave acidente nuclear em um dos reatores nucleares da usina elétrica da província de Fukushima.
Os comentários em relação ao acidente têm sido os mais diversos. Há quem atribua a tragédia a uma reação da natureza à ação devastadora do homem no planeta Terra. Há quem a considere um castigo divino, ou um sinal do fim dos tempos. Há quem a tome como apenas mais um evento da natureza que, infelizmente, atingiu uma usina nuclear.
Leituras e leituras sobre a catástrofe não irão vencer a visão de um homem que está dirigindo o seu carro sobre uma rodovia e se vê repentinamente tomado de todos os lados por um tsunami devastador. Também não darão respostas ao coração da mãe que viu sua casa ruir, seus filhos perderem-se no entulho da onda gigante e que agora está sozinha, sem abrigo e sem família.
A pergunta inevitável que, precoce ou tardia, vem à mente é “Onde estava Deus quando isso aconteceu?”. Será que foi Deus quem moveu a natureza contra o próprio homem, como se fosse um castigo? Ou será que Deus apenas estava de braços cruzados, observando enquanto tudo acontecia, sem tomar atitude alguma? Será que Deus está cego ao sofrimento do homem?
A vida e o ministério do profeta-sacerdote Ezequiel podem-nos ser muito inspirativas nesse sentido. Ezequiel é tido hoje pelos cristãos como um dos maiores profetas da antiguidade e pelos judeus como um dos principais sacerdotes a estabelecer os pilares da religião judaica. De qualquer forma, foi um homem que soube conciliar o ministério profético (oráculos divinos, denúncia de injustiça social, chamada ao arrependimento, etc.) com o ministério sacerdotal (ensino, serviço do templo, separação entre sagrado e profano, etc.).
Mas o que dá a Ezequiel as “credenciais” que o tornam relevante ao falarmos de catástrofes são as visões descritas em seu livro. Sobre as narrativas das visões de Ezequiel paira sempre uma atmosfera de horror sagrado diante do mistério do divino. A visão do vale de ossos secos – que, ao sopro divino, se reanimam, começam a criar juntas e medulas, músculos, carne e voltam à vida, formando um enorme exército – é um bom exemplo.
Ao homem a quem Deus deu visões de horror, certamente também ele deu respostas e palavras de conforto e esperança que vencem o horror, vencem o mistério que é a própria atuação divina e tangem a alma que está estarrecida diante de uma tragédia.
Refletindo sobre as perguntas acima, encontramos algumas respostas no livro de Ezequiel e em outros livros da Bíblia que nos permitem fazer as seguintes afirmações:
1. Deus não utiliza a natureza contra o homem
a) o homem é quem manipula a natureza a seu desfavor: Em primeiro lugar, Deus não utiliza a natureza contra o homem, mas é o próprio homem, a quem Deus imbuiu de um espírito criador, quem manipula e modifica a natureza, às vezes a seu favor, às vezes a seu desfavor;
b) o homem é a coroa da criação, mas também está sujeito à natureza: O livro do Gênesis conta-nos sobre quando Deus criou o mundo. Deus criou o homem e o colocou como coroa sobre toda a criação. Das criaturas de Deus, o homem é a mais complexa, a mais inteligente e a única que Deus criou à imagem e sua semelhança. Porém, ainda que seja a “coroa” da criação de Deus, o homem está sujeito à natureza. O homem não consegue evitar, por exemplo, que o tempo passe – o tempo é definido pela natureza dos astros. O homem também não pode evitar que o outono passe e venha o inverno, muito menos pode evitar o movimento das marés, o ciclo das águas, o dia e a noite. A natureza está em constante movimento, e isso faz parte de sua saúde; não é uma catástrofe. O homem precisa admitir que também está sujeito a esse movimento da natureza em torno de si.
c) Deus tem um pacto de vida com homem, de não destruí-lo por meio das águas: Vamos mais uma vez ao Gênesis. A Bíblia conta que, certa vez, Deus olhou para a humanidade, viu a sua maldade e resolveu destruir todos os homens, preservando a vida de apenas uma família, a de um homem chamado Noé, que sobreviveu porque construíra um barco, conforme a ordem de Deus. Ao final dessa narrativa, Deus coloca no céu o arco-íris e faz um pacto com Noé, de que nunca mais irá destruir a humanidade por meio das águas. Por esse motivo, não devemos pensar que um desastre como a morte de milhares de pessoas por um tsunami tenha sido causado por Deus.
2. Deus não está de braços cruzados
a) a natureza anuncia a cada dia o mover das mãos do Senhor: O Salmo 19 nos diz que o céu anuncia a obra das mãos de Deus, e que um dia fala sobre isso ao outro dia, assim como uma noite fala à noite seguinte. Isso é uma metáfora poética para nos afirmar que a criação é a primeira revelação de que Deus existe e de que ele não está de braços cruzados – pois dá a cada dia ao homem o calor do sol e o descanso da noite. Deus está, portanto, em constante movimento para abençoar o homem. Deus não está, de forma alguma, sentado em uma poltrona, como se fosse um espectador numa platéia-de-uma-pessoa-só, assistindo ao espetáculo da vida humana (tragédia ou comédia grega?), comendo pipoca e tomando guaraná.
b) o tempo de Deus não é o nosso tempo: O apóstolo Pedro (2Pe 3.8) afirma que, para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Nós, seres humanos, estamos limitados, “presos” à contagem de dias do planeta Terra. Mais uma vez, Deus não vê passar o mundo como passa uma escola de samba que atravessa a avenida Marquês de Sapucaí e tem um tempo cronometrado para cumprir seu papel. Deus vê todos os tempos: começo, meio e fim. E novo começo. E Deus já preparou aquilo que ainda há de vir.
c) Deus pede que o homem tenha atitude: Deus deseja que o homem movimente-se no sentido de aproximar-se dele. É necessária uma constante renovação interior: é preciso um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 18.31).
3. Deus não está cego
a) Deus vê o nosso sofrimento: Já que estamos falando em sofrimento, que tal falarmos em pecado? Sim, o pecado também leva ao sofrimento, a um sentimento enorme de culpa e a um distanciamento de Deus. Deus vê o nosso pecado? Sim, com certeza, e disso não temos dúvida. O próprio Espírito nos testifica de que, quando pecamos, estamos em um caminho errado e que Deus tem conhecimento disso. Da mesma forma que Deus vê o nosso pecado, ele vê o nosso sofrimento.
b) Deus não tem prazer no nosso sofrimento: A Bíblia afirma em Ezequiel 18.32 que Deus não sente prazer com a morte de ninguém, portanto Deus não tem prazer no nosso sofrimento, assim como não teve prazer na morte daqueles quase 11 mil homens no Japão.
c) O homem tem responsabilidade pelo seu pecado: Embora um terremoto seguido de tsunami seja uma ocorrência comum na natureza e provavelmente não esteja relacionada à ação do homem ou de Deus, não podemos fechar os olhos ao fato de que, com o nosso pecado, “cavamos a nossa própria cova”, como dizia um professor meu na faculdade de Arquitetura. Quando pecamos, ofendemos a Deus. Mas, muito mais do que isso, o pecado nos coloca distantes dele. Quando pecamos contra o nosso próximo, o pecado nos distancia do próximo.
E quanto à natureza? Existe pecado contra a natureza, contra a criação? Certamente, quando pecamos contra o planeta terra, nos distanciamos da natureza e de seu Criador, e apressamos mais um pouquinho o dia da nossa morte, ou talvez da morte de alguém próximo a nós. É necessário que cada um assuma a responsabilidade que tem sobre seu próprio pecado (Ez 18.1-4).
Uma visão da esperança
Na visão do vale de ossos secos narrada por Ezequiel, aquilo que era horror se converte em vida. Deus não deseja que a humanidade torne-se e permaneça como um monturo de ossos ressequidos e sem vida alguma. Deus não deseja que o homem permaneça afastado dele (que é a morte espiritual).
O profeta Ezequiel, em seu livro, anuncia pela primeira vez um Messias que será um “pastor” (Ez 34.23; 37.24), em vez de um “rei”. Anuncia que a glória de Deus voltará a preencher o seu santo Templo (Ez 43) e que o próprio Deus dará ao homem novo coração e novo espírito (Ez 11.19; 36.26). Deus estabelecerá uma nova aliança, mas não para recompensar o povo por sua “volta” para ele, e sim por pura benevolência e graça (16.62-63).
O Deus que Ezequiel anuncia é um Deus que concede perdão ao homem em graça. É um Deus que abomina o mal e o pecado, mas um pastor que cuida do seu rebanho como quem cuida de ovelhas que não sabem por onde devem andar. Um Deus que constrói um Templo novo, estabelece uma nova aliança, dá novo coração e novo espírito.
O Apocalipse de João nos fala nesse mesmo Deus, que um dia irá criar novo céu, nova terra. Um Deus que, em pessoa, enxugará dos olhos dos homens toda lágrima. E não haverá mais morte, nem choro, nem clamor, nem dor. Porque Deus fará novas TODAS as coisas (Ap 21.1-7).
Se no tempo presente não temos respostas, se a morte de mais de 10 mil pessoas em um único dia por conta de um desastre natural nos assusta, devemos descansar a nossa alma em Deus, sabendo que estamos ainda no tempo das “primeiras coisas” (Ap. 21.4), que um dia irão passar. Devemos permanecer seguros de que, em Cristo, a morte será apenas a separação do nosso corpo, pois na eternidade iremos habitar com ele.
Encerro com uma poesia, que é uma música, de Vital Lima, chamada “Sobreviventes”:
As cidades sabem
que as explosões
podem destruir as casas,
soterrar os sentimentos,
nossas canções.
Mas as cidades também sabem
que um coração,
um coração teimoso
reconstruirá escombros
e as nossas canções.
E que há de florescer outra realidade
a plantar-se entre os amantes
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